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COREIAS, A GENUÍNA APROXIMAÇÃO E AS AMEAÇAS

Dois presidentes que falam a mesma língua à frente de um povo separado artificialmente

2018-09-27

José Goulão, em publicação conjunta com AbrilAbril

O ambiente em que decorreu a recente visita do presidente da Coreia do Sul a Pyongyang e as decisões tomadas nas reuniões com o presidente da Coreia do Norte reflectem um novo clima realmente existente entre os governos dos dois países e que corresponde ao sentir dominante do povo único, separado artificialmente em dois territórios. A vontade popular, porém, conta pouco nestes assuntos, embora haja outros interesses, designadamente económicos e regionais, capazes de potenciar essa dinâmica de cooperação. Mas o sombrio pano de fundo que envolve estes passos desanuviadores persiste, pretenderá condicioná-los, no limite inviabilizá-los.
Se, em abstracto, os presidentes da Coreia do Norte e da Coreia do Sul dispusessem de plenos poderes para negociar e incrementar as decisões que vão tomando, em reuniões onde parece prevalecer a boa-fé, poderíamos dizer que estávamos a assistir a uma transformação histórica. As provas dadas de ambos os lados são suficientes para transmitir a convicção de que, apesar das profundas diferenças de organização política entre o Norte e o Sul – correlacionadas, em grande parte, com condições históricas e estratégicas que entretanto se transformaram – haveria vontade e elementos de convergência para os dois países encontrarem maneira de conviver em paz e sem que o povo coreano estivesse dividido.
Este cenário, contudo, é artificial. Se é certo que a Coreia do Norte decide por si própria, embora procurando estar em sintonia com as principais potências regionais, China e Federação Russa, o mesmo não poderá dizer-se da Coreia do Sul – olhada por Washington como uma colónia, uma base militar estratégica e uma posição avançada para os seus intuitos dominadores sobre a Ásia. Para que não haja dúvidas de que assim é, o presidente dos Estados Unidos apressou-se a responder ao bom clima sentido em Pyongyang puxando de uma das suas armas favoritas: continuação das sanções. O recado ficou dado aos dois lados da Península, e a partir da tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Processos paralelos

Comparando o processo conduzido pelos presidentes Kim Jong-un (Coreia do Norte) e Moon Jae-in (Coreia do Sul) com outros momentos de aproximação já registados anteriormente poderá dizer-se que se pressente uma vontade genuína de encontrar maneiras de viver em paz.
A subjectividade, no entanto, conta pouco para uma análise. Se passarmos ao conteúdo das decisões já tomadas pelos dois chefes de Estado nas três recentes cimeiras, fica a certeza de que foram mais longe que nunca. As medidas militares de confiança como o anúncio do fim das manobras militares agressivas, o desmantelamento de instalações nucleares, o restabelecimento de comunicações entre famílias, sobretudo a criação de um gabinete de ligação em Kaesong, uma espécie de embaixada comum dos dois países, são passos inovadores, avanços jamais alcançados.
O que está a acontecer, de facto, desde a cimeira de Singapura entre Kim Jong-un e Donald Trump é a coexistência de dois processos paralelos nos quais parece não haver sintonia entre Seul e Washington – melhor dizendo, em que Moon Jae-in parece ir a uma velocidade não permitida por Donald Trump e, sobretudo, pelo Pentágono.
Há comportamentos que demonstram liminarmente o mau humor norte-americano perante os passos de aproximação dados por Pyongyang e Seul. Por exemplo, a tentativa de inviabilizar o funcionamento do gabinete de ligação de Kaesong, privando a região de energia porque assim o determinam as sanções norte-americanas; ou o aumento de patrulhas norte-americanas e australianas no Mar do Japão para impedir a transferência de combustíveis para navios norte-coreanos, operações necessárias para quebrar o bloqueio energético a que o país é submetido, sempre no âmbito das sanções.
O risco da existência de dois processos paralelos é o de que nunca mais se encontrem – prevalecendo assim o que tem por detrás a arbitrariedade e a força bruta do Pentágono. Pyongyang deixou a porta aberta para que os dois planos convirjam, mostrando disponibilidade para desmantelar a sua principal instalação nuclear, em Yongbyan, no caso de os Estados Unidos aceitarem desnuclearizar a península. Uma matéria em que a Coreia do Sul não tem, na realidade, voz activa, o que evidencia o paralelismo dos dois processos negociais. Dois, em boa verdade, é uma força de expressão, porque depois do show-off trumpiano de Singapura não pode afirmar-se que exista qualquer negociação séria entre Pyongyang e Washington.

Interesses que contam

Se bem que a aproximação entre as duas Coreias tenha as debilidades evidenciadas, existem aspectos envolventes que ampliam a sua importância a um contexto regional que pode ter muito peso num mundo onde a unipolaridade se vai diluindo lentamente.
A abertura da Coreia do Norte, as suas conhecidas carências em termos de desenvolvimento e estruturas, é um incentivo aos investimentos da Coreia do Sul e também de outros países capazes de encarar os caminhos para a paz na península de maneiras menos condicionadas pelas exigências e as chantagens de Washington.
A questão energética é um dos interesses que pode dinamizar aproximações e contribuir para isolar renitências.
Ministros da Coreia do Sul não têm escondido, ao longo deste ano, o seu empenhamento no sentido de desenvolver as obras do oleoduto entre Vladivostok, na Rússia, e Seul, passando pela Coreia do Norte. A obra tem um impacto regional notável e grandes repercussões na península da Coreia, tanto no Norte como no Sul.
No Norte, porque as carências energéticas são dramáticas, sobretudo devido ao cerco internacional montado através de sanções.
No Sul, porque o território depende, em mais de 90%, de energia importada. A central nuclear do país tem vindo a ser desactivada desde a catástrofe de Fukushima. A maior parte da da energia do território é assegurada através da importação marítima de gás liquefeito, o que eleva os preços ao consumidor até cerca do dobro dos praticados em média na União Europeia.
Percebe-se facilmente o potencial económico, para todas as partes, do abastecimento pennsular através de combustíveis russos.
Por isso, Seul reactivou as negociações com a Gazprom russa pouco antes da cimeira entre Kim Jong-un e Donald Trump, um processo que tem vindo a ser acelerado ao ritmo dos avanços nas cimeiras coreanas.
Mesmo no caso de um recuo no entendimento entre as Coreias, o abastecimento da Coreia do Sul com petróleo russo poderia ser possível construindo o oleoduto através do Mar do Japão, sem passar pela Coreia do Norte. A actividade sísmica no percurso, porém, desencoraja esta opção e aconselha vivamente a passagem por terra, isto é, pela Coreia do Norte. Aliás, dois terços do percurso Vladivostok-Seul passam por território norte-coreano.
Tal como as transformações políticas, também as transformações económicas enfrentam um nó difícil de desatar: a colonização da Coreia do Sul pelos Estados Unidos. Se Washington tem patrocinado guerras, chantagens e tentativas de golpes de Estado para impedir o transporte de combustíveis russos para a Europa Central e Ocidental, porque não há-de fazê-lo na Coreia, estando a Rússia igualmente em jogo?
É genuína a aproximação entre as Coreias do Norte e do Sul. Mas até onde as ameaças a deixarão chegar?

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