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O OVO DA SERPENTE EM ABADIA ITALIANA

Stephen Bannon em Itália (Marco Bonomo/AP/Shutterstock)

2019-04-21

Wayne Madsen, Strategic Culture/O Lado Oculto

Stephen Bannon, o intermitente político de Donald Trump, apoia a criação de uma aliança neonazi e fascista chamada “O Movimento”. A situação tem o seu quê de irónico, uma vez que Bannon, que afirma estar à frente de uma causa populista contra o globalismo, usa táticas globalistas para coordenar o seu objectivo de levar ao poder e sustentar governos de extrema-direita na Europa, nas Américas, na orla do Pacífico, na Ásia e no Médio Oriente. Bannon recorre, sem dúvida, à experiência que adquiriu como executivo de uma empresa extremamente globalista de Wall Street, o Goldman Sachs, para impulsionar em todo o mundo a sua agenda política de extrema-direita.

Stephen Bannon fundou um secretariado de O Movimento em Bruxelas e uma academia para preparação de um exército de activistas políticos de extrema-direita na Abadia de Trisulti, um mosteiro da Ordem de Cister com 800 anos na região central de Itália. Bannon pretende criar uma versão ainda mais à direita da Open Society Foundation, de George Soros, um instrumento do neoliberalismo e do grande poder corporativo em todo o mundo.

Armas apontadas ao Papa

A partir da sua recém-adquirida sede em Trisulti, Bannon, que se diz católico, declarou que o liberalismo do Papa Francisco está a destruir a Igreja Católica e culpa o pontífice pela praga de pedofilia que se abateu sobre as instituições católicas. No entanto, consta que o próprio Bannon está associado a actividades pedófilas, incluindo o uso de uma casa que alugou no bairro Coconut Grove, em Miami, e que terá sido local de produção de metanfetaminas e de filmes pornográficos. A publicação Shareblue Media revelou que o célebre director de fotografia subaquática Lawrence Curtis, que alugou a casa a seguir ao casal Bannon, disse que a habitação era usada para filmar pornografia, além de ser um lugar frequentado por um fluxo constante de homens, mulheres e até crianças onde o uso de drogas era flagrante a todas as horas do dia e da noite.
Na sua carreira, Stephen Bannon foi vice-presidente da International Gaming Entertainment (IGE), empresa de jogos de vídeo com sede em Hong-Kong com ligações a uma rede de pedofilia de Hollywood que juntava directores da IGE e de outra empresa, a Digital Entertainment Network. Recorrendo às táticas típicas do governo de Trump, escudando-se em acusações alheias para fazer circular as suas mensagens, Bannon parece ter-se servido do ex-Papa Bento XVI, que permaneceu em silêncio após ter abandonado a cadeira pontifícia em pleno escândalo de pedofilia na Igreja Católica, para ele próprio atacar o Papa Francisco.
Numa carta recente, a primeira declaração pública desde que deixou de ser Papa, em 2013, Bento emitiu do seu apartamento isolado na área do Vaticano uma série de ataques conservadores contra o “liberalismo” na Igreja. Os pontos aflorados por Bento XVI são muito parecidos, de forma suspeita, com os invocados por Bannon, que por acaso estava em Roma quando Bento escreveu a missiva.
Bento XVI culpou as tendências liberais na Igreja Católica pelos problemas de pedofilia, escondendo o silêncio utilizado por ele e os seus arcebispos, que transferiam os padres católicos de diocese para diocese para evitar processos criminais. A acusação de Bento XVI segundo a qual os problemas da Igreja se devem essencialmente ao Concílio Vaticano Segundo e à revolução sexual nos anos sessenta é puro “bannonismo”, o tipo de argumento de extrema-direita que normalmente se encontra nas ruminações de sites de ódio na internet, como o Breibart News, por exemplo.

Onde também entra o Opus Dei

Foi o período pré-papal de Bento XVI como poderoso chefe da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício) do Vaticano que permitiu a figuras importantes da Igreja como o cardeal australiano George Pell, agora preso na Austrália depois de condenado por pedofilia, escaparem e protegerem padres pedófilos de processos criminais. Autoridades da Igreja nos Estados Unidos, Chile, Irlanda e outros países estiveram com Bento XVI na que foi talvez uma das maiores conspirações criminosas da história.
O Papa Francisco assumiu uma posição muito mais firme contra a pedofilia que grassa entre os sacerdotes. Por exemplo, Francisco retirou ao ex-arcebispo de Washington DC, Theodore McCarrick, politicamente influente, tanto o estatuto de cardeal como o de sacerdote. McCarrick tem amigos poderosos nos círculos de direita, incluindo a prelatura pró-fascista Opus Dei, que tem o fundador da empresa de mercenários Blackwater (agora Academi), Erik Prince, como um dos seus apoiantes na área de Washington. A irmã de Prince, Betsy DeVos, é a titular da Educação no governo de Donald Trump.

O Movimento é fascista e racista

O Movimento de Bannon, com o seu Secretariado em Bruxelas, funciona sob a égide de Mischael Modrikamen, dirigente do Partido do Povo Belga, organização de direita da Valónia aliada de outros partidos de direita na Flandres, Itália, Hungria, França, Holanda, Áustria, Reino Unido, Suécia, Finlândia e Espanha. À primeira vista, sendo Modrikamen judeu, não deveria ter a ver com alianças entre neonazis. No entanto, já desde a década de trinta que são conhecidos os casos de entendimento entre sionistas e nazis, incluindo, por exemplo, o “Acordo de Transferência”, que permitiu à Alemanha de Hitler conceder vistos de saída a judeus alemães que emigrassem para a Palestina, em troca de transferências de dinheiro para os cofres nazis.
Também em Hollywood houve cooperação, porque magnatas do cinema, que eram judeus, concordaram em não fazer filmes antinazis, considerados ofensivos para o Terceiro Reich, durante um período na década de trinta.
Modrikamen apresentou Bannon a dirigentes fascistas e afins em toda a Europa; e a criação da academia de formação de quados nazi-fascistas é um marco importante da sua cruzada mundial de direita.
Segundo o programa de formação, os futuros líderes fascistas aprenderão uma história do mundo que se baseia na supremacia branca “judaico-cristã” europeia sobre outras religiões e povos do mundo, em especial o islamismo e os muçulmanos. Esta visão fracturada da história imposta por Bannon tem vindo a estar na origem de mortíferos atentados terroristas como os de Oslo em 2011, Charleston em 2015, Quebec e Charlottesville em 2017, Annapolis em 2018 e Christchurch, na Nova Zelândia, em 2019.
Stephen Bannon pode ter ultrapassado limites legais nos seus ataques ao Papa Francisco a partir do Vaticano e de solo italiano. A Santa Sé é reconhecida como Estado-nação pelo “país dos gringos” e Francisco é um chefe de Estado internacionalmente aceite.
A embaixadora norte-americana no Vaticano é Callista Gingrich, esposa de Newt Gingrich. O envolvimento de Bannon, enquanto cidadão privado, numa flagrante tentativa para criar uma divisão política na hierarquia do Vaticano e o derrube do chefe de Estado da Santa Sé é uma violação da Lei Logan de 1799, que proíbe aos norte-americanos privados fazerem política externa, sem autorização, em nome do governo dos Estados Unidos. A Lei Logan é muito clara:
Qualquer cidadão dos Estados Unidos, onde quer que se encontre, que, sem autorização do seu país, directa ou indirectamente, inicie ou exerça qualquer correspondência ou relacionamento com qualquer governo estrangeiro, qualquer representante oficial ou agente do mesmo, com a intenção de influenciar as medidas ou conduta de qualquer governo estrangeiro, qualquer representante oficial ou seu agente em relação a quaisquer disputas ou controvérsias com os Estados Unidos, ou para derrotar medidas dos Estados Unidos, será multado ou preso por não mais de três anos, ou ambos.
Bannon também viola claramente a Lei da Neutralidade, que proíbe os cidadãos de participarem em actos hostis contra nações com as quais os Estados Unidos estão em paz. Se Soros, inimigo de Bannon, é acusado de violar as Leis Logan e da Neutralidade, também Bannon deve ser. No entanto, Stephen Bannon parece estar confortável no seu novo ambiente do mosteiro de Trisulti quando, com base em flagrantes violações das leis dos Estados Unidos, deveria antes estar confinado a uma célula da instituição prisional do seu país.



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