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ARÁBIA SAUDITA ESTÁ A PERDER A GUERRA DO IÉMEN

Sem palavras

2019-04-07

Michael Horton, Global Research/O Lado Oculto

A guerra do Iémen entrou no seu quinto ano e está hoje claro que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, com a ajuda e cumplicidade dos Estados Unidos e do Reino Unido, devastaram um país já de si empobrecido. As infraestruturas iemenitas foram destruídas, o mesmo acontecendo com alguns dos seus terrenos agrícolas mais produtivos. O resultado é a pior crise humanitária do planeta, praticamente ignorada pela chamada comunidade internacional.

Apesar de ser hoje um país destruído, o Iémen transformou-se no Vietname da Arábia Saudita. Idem para os Emirados Árabes Unidos. Os dois países esbanjaram milhares de milhões de dólares, envolveram um incontável número de tropas e mercenários naquilo que se transformou num pântano de proporções catastróficas. O que, à partida, esperavam que fosse uma guerra para decidir rapidamente transformou-se num atoleiro; e o resto do mundo interroga-se sobre as motivações desta acção, incitando os parceiros ocidentais a retirar imediatamente o apoio às duas nações árabes.
A razão invocada para o envolvimento da Arábia Saudita é a necessidade de derrotar os rebeldes Houthi, um grupo xiita com profundas raízes no Iémen. Esse objectivo não foi alcançado. Os dois Estados do Golfo querem fazer crer que os Houthi são correias de transmissão do Irão, mas está cada vez mais claro que se trata de um grupo ferreamente independente que, embora receba ajuda limitada, não acata ordens do Teerão.

Deveriam aprender com a História

Os dirigentes sauditas e dos Emirados fariam bem em aprender com uma História de dois mil anos durante os quais o Iémen fez correr o sangue e esvaziar os cofres de poderes imperiais, e outros de menor escala. Os iemenitas derrotaram os romanos, os turcos otomanos por duas vezes e expulsaram os britânicos em 1967. Também venceram uma invasão egípcia em 1962. Num quadro muito parecido com o vivido pelos Estados Unidos no Vietname, há mais de 40 anos, e mais recentemente no Afeganistão, os invasores são obrigados a confrontar-se numa guerra de desgaste sangrando os seus recursos e minando qualquer autoridade moral que pudessem ter invocado no processo.

Guerra neocolonial

Mas será que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos foram alguma vez transparentes quanto às suas verdadeiras intenções no Iémen? Os dois Estados têm armado e financiado um número crescente de milícias e facções iemenitas, algumas das quais têm laços com a al-Qaida. Essas práticas transformaram deliberadamente o Iémen numa manta de retalhos, num cenário de guerras entre feudos. Isto acontece porque o objectivo escondido da “intervenção” tem muito mais a ver com o acesso seguro ao património estratégico e aos recursos naturais do Iémen do que com a influência iraniana. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos estão envolvidos numa guerra neocolonial por poder, recursos e território. Os dois países estão cada vez mais em competição entre si, tentando partilhar o Iémen em esferas de influência.
Por disporem de um exército mercenário um pouco mais competente, os Emirados estão à frente da Arábia Saudita nesse objectivo. Montaram bases militares em todo o sul do país, através das quais apoiam separatistas de várias linhas que querem de tudo, desde um sul do Iémen independente até um emirado islâmico. Não contentes em ocuparem toda a região continental, os Emirados também instalaram bases na outrora imaculada ilha iemenita de Socotra – património mundial da UNESCO – e na ilha de Perim.
A Arábia Saudita, por seu lado, tenta alcançar o seu aliado e está a reivindicar a província de al-Mahra, no leste do Iémen. Riade tenciona construir nessa região um gasoduto que lhe permitirá contornar o Estreito de Ormuz. No entanto, como acontece em outras regiões do país invadido, as populações lutam para impedir o que cada vez mais se assemelha à colonização de territórios por potências estrangeiras. Habitantes de al-Mahra levantam-se contra a construção de uma madrassa (escola islâmica) financiada pela Arábia Saudita na qual, sem dúvida, seriam utilizados livros escolares deste país, os mesmos que são usados por comunidades afectas ao Estado Islâmico ou Isis.

O mau exemplo dos Estados Unidos

Ambos os países teriam muito a aprender com as dispendiosas desventuras dos Estados Unidos desde o 11 de Setembro de 2001. Apesar de disporem das mais poderosas forças militares do mundo e de gastarem biliões de dólares, os norte-americanos não conseguiram atingir os seus objectivos no Iraque ou no Afeganistão, país que é, em muitos aspectos, semelhante ao Iémen. No Iraque, a invasão destruiu grande parte do país e abriu caminho à ascensão do Estado Islâmico, além de entregar Bagdade nos braços do Irão. Em ambas as nações invadidas novas e mais mortíferas estruturas extremistas surgiram dos vácuos de poder que foram criados.
A guerra do Iémen tem resultados semelhantes. Ao continuarem a lutar contra os Houthi, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos estão, paradoxalmente, a fortalecer os seus inimigos e a oferecer ao Irão um terreno mais fértil para as suas operações de influência. Os Houthi são excelentes combatentes mas manifestam menores capacidades em termos de governança. A invasão e os ataques aéreos da Arábia Saudita e dos Emirados reforçaram a legitimidade dos Houthi e permitem-lhes dedicar-se ao que fazem melhor: combater.
Pode levar anos até que o Iémen seja um país unificado e com um governo a funcionar novamente. Na verdade, o Iémen poderá nunca mais voltar a ser um país unificado. No entanto, é improvável que a Arábia Saudita e os Emirados tenham retorno do investimento nesta guerra. Uma leitura, ainda que superficial, da história do Iémen ter-lhes-ia ensinado isso antecipadamente. E, na falta disso, uma leitura das guerras fracassadas conduzidas pelos Estados Unidos poderiam tê-los impedido de se lançarem nesta operação.
Sem uma constante pressão internacional sobre a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Irão, a guerra do Iémen irá continuar nos próximos anos. Durante esse período de tempo serão esbanjados mais milhares de milhões de dólares pela Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, novos grupos terroristas irão surgir e, ironicamente, o Irão terá mais oportunidades de expandir a sua influência.
Mais tragicamente ainda, a guerra continuará a matar, mutilar, a empobrecer e a torturar pela fome dezenas de milhares de civis iemenitas.
Ironicamente, embora o Iémen jamais tenha sido conquistado, no final poderá não restar nada que valha a pena conquistar.



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