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AS PONTES, AS PESSOAS E A GUERRA

2018-09-14

Manlio Minucci, in Il Manifesto, Itália
“A imagem é verdadeiramente apocalíptica, dir-se-ia que uma bomba caiu sobre esta importante artéria”: eis como um jornalista descreveu a derrocada da Ponte Morandi no dia 14 de Agosto, em Génova, ceifando a vida a dezenas de pessoas. Palavras que trazem outras imagens à mente, as das cerca de 40 pontes sérvias destruídas pelos bombardeamentos da NATO em 1999, entre as quais a ponte sobre o Morávia meridional, onde dois mísseis atingiram um comboio civil massacrando os seus passageiros.

Durante 78 dias, descolando principalmente de bases italianas postas à disposição pelo governo de D’Alema, 1100 aviões efectuaram 38 mil saídas, durante as quais largaram 23 mil bombas e mísseis. Destruindo sistematicamente as estruturas e infraestruturas da Sérvia e provocando milhares de vítimas civis.
Nesses bombardeamentos participaram 54 aviões italianos, que efectuaram 1378 saídas, atacando objectivos indicados pelo comando norte-americano. “Em número de aviões fomos os segundos atrás dos Estados Unidos; a Itália é um grande país e não deveremos espantar-nos perante tal empenho demonstrado nesta guerra”, declarou D’Alema.
No mesmo ano em que participou na demolição final do Estado Jugoslavo, o governo de D’Alema (então dirigente dos Democratas de Esquerda) demoliu a propriedade pública da Società Autostrade (gestora também da Ponte Morandi), cedendo uma parte a um grupo de accionistas privados e cotando o resto em Bolsa.
Em nome do lucro
A Ponte Morandi desabou fundamentalmente por responsabilidade de um sistema centrado no lucro, o mesmo que está na base dos poderosos interesses representados pela NATO.
A semelhança entre as imagens da Ponte Morandi desmoronada e as das pontes sérvias bombardeadas pode parecer forçada à primeira vista; no entanto, tem perfeito cabimento.
Antes de mais, a cena angustiante das vítimas soterradas nos escombros do desabamento deveria fazer-nos reflectir sobre a horrível realidade da guerra, que os meios de comunicação social nos põem diante dos olhos como uma espécie de wargame, com o piloto definindo a ponte como alvo e a bomba teleguiada que a faz explodir nos ares.
Em segundo lugar, deveríamos lembrar-nos que a Comissão Europeia apresentou, em 28 de Março, um plano de acção prevendo a potencialização das infraestruturas da União Europeia, incluindo as pontes, não para torná-las mais seguras para a mobilidade civil, mas antes mais aptas para a mobilidade militar.
A guerra antes das pessoas
Na verdade, este plano foi decidido pelo Pentágono e pela NATO, que pediram à União Europeia “que melhore as infraestruturas civis de modo a que sejam adaptadas às exigências militares”: para que seja possível deslocar com a maior rapidez carros de assalto, canhões com propulsão própria e outros veículos militares pesados de um país europeu para outro e fazer frente “à agressão russa”. Por exemplo: se uma ponte não estiver em condições de suportar o peso de uma coluna de tanques, deverá ser reforçada ou reconstruída.
Dir-se-á que, neste caso, a ponte tornar-se-ia também mais segura para veículos civis. Mas a questão não é assim tão simples.
Estas modificações apenas serão efectuadas nos troços mais importantes para a mobilidade militar e as enormes despesas ficarão por conta de cada país, que assim terá que desviar esses recursos do desenvolvimento geral das suas infraestruturas.
Está prevista uma contribuição financeira da União Europeia no valor de 6500 milhões de euros mas – como especificou Federica Mogherini, responsável pela “política de segurança” da União Europeia – apenas para “assegurar que as infraestruturas de importância estratégica sejam adaptadas à exigências militares”.
O tempo urge: é ainda durante o mês de Setembro que o Conselho Europeu tem que especificar (sob indicação da NATO) a lista de infraestruturas a potencializar para a mobilidade militar. Será que a Ponte Morandi será incluída na lista, para ser reconstruída de modo a que os carros de assalto dos Estados Unidos e da NATO possam transitar em segurança sobre as cabeças dos genoveses?




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