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OS SUSPEITOS JOGOS DE GUERRA DA NATO NO IRAQUE

Trump na sua "visita surpresa" às tropas no Iraque, às quais comunicou que estão para ficar

2019-02-04

Melkulangara Bhadrakumar, Strategic Culture/O Lado Oculto

No final do ano passado, em 5 de Dezembro, realizou-se em Bagdade, no Ministério da Defesa, uma intrigante conferência que serviu de apresentação da recentemente criada Missão da NATO no Iraque (NMI, sigla anglo-saxónica). De acordo com um comunicado emitido pelo Comando Conjunto das Forças da NATO em Nápoles, na reunião participaram “dirigentes-chave dos sectores de segurança e defesa do Iraque, incluindo o chefe do Estado-Maior iraquiano, general Othman al-Ghanimi”; estiveram ainda representadas várias missões, organizações e entidades internacionais parceiras da aliança, designadamente no âmbito da União Europeia e das Nações Unidas, além de missões diplomáticas.

O general canadiano Dany Fortin, comandante da NMI, apresentou o mandato, visão e objectivos da missão, que qualificou como “uma nova etapa de um relacionamento de longa data” entre a NATO e o Iraque, que associará “conhecimentos especializados e as melhores práticas em segurança/defesa, a reforma desta área, reforço institucional e formação, tanto no âmbito da aliança como dos seus parceiros”.
Depois de várias apresentações e da sessão de perguntas e respostas, o chefe do Estado-Maior iraquiano fechou a reunião com um claro apoio à nova missão da NATO no país e sublinhou a importância de uma cooperação a longo prazo entre a República do Iraque e a aliança.

“Base para fazer coisas na Síria”

A reunião realizou-se apenas duas semanas antes de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fazer o seu mediático anúncio sobre a retirada das tropas norte-americanas da Síria. Exactamente três semanas depois de a NMI se ter apresentado no Iraque, Trump realizou uma “visita surpresa” à base aérea de al-Asad, situada na região ocidental do Iraque, entre Bagdad e a fronteira com a Síria. Tratou-se de uma viagem com um cariz simbólico, pois foi a primeira deslocação do presidente ao encontro de tropas estacionadas em zonas de combate.
A declaração mais importante feita por Trump nessa ocasião foi a de que não tem planos para retirar as tropas norte-americanas do Iraque. E acrescentou que “na verdade, poderemos usar o território iraquiano como base se for preciso fazer alguma coisa na Síria”.
A relação entre estes três acontecimentos ainda não está a servir de tema para muitos analistas, mais entretidos com a cacofonia da decisão de retirada da Síria feita por Trump e consequentes declarações proferidas nos Estados Unidos, especialmente as polémicas observações feitas pelo conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, durante uma visita a Israel e nas quais contrariou as posições do Comandante-em-chefe.
Uma organização poderosa
A Missão da NATO no Iraque é um poderoso veículo para as estratégias regionais dos Estados Unidos. Acima de tudo, porém, a NMI é importante para as relações transatlânticas. Gere uma das principais causas de tensão entre os Estados Unidos e a Europa desde as origens da NATO – o seu envolvimento no Médio Oriente.
Historicamente, a estrutura de comando e as capacidades militares da aliança foram desenvolvidas para assegurar a dissuasão da antiga União Soviética. Os Estados europeus receavam que o envolvimento da NATO no Médio Oriente tivesse consequências negativas para a segurança na Europa. Estas relações conduziram ao desenvolvimento de mecanismos flexíveis na era pós-guerra fria que apoiam as chamadas operações fora da área da aliança e dependem de estruturas europeias, “coligações informais” e da cooperação com países parceiros. No entanto, os esforços dos países europeus foram dispersos, e muitas vezes negligenciados pelos Estados Unidos, levando a uma pressão maior para o envolvimento da NATO”.
A NMI, pelo contrário, é uma missão formal da NATO semelhante, em alguns aspectos, à formada para o Afeganistão; porém, potencialmente muito mais do que isso. Até certo ponto, este organismo pode suscitar uma distribuição mais equilibrada dos custos entre os membros europeus da aliança e os Estados Unidos, aspecto particularmente importante para Trump. Aguarda-se desde 2014 que os aliados da NATO aumentem os seus orçamentos de defesa pelo menos para dois por cento do PIB, mas as perspectivas são no sentido de apenas metade cumprirem essa meta. Enquanto isso, os Estados Unidos aumentaram significativamente os gastos com o reforço da sua presença militar na Europa, de mil milhões de dólares em 2015 para os 6500 milhões projectados para 2019. A Missão da NATO no Iraque implica mais gastos dos aliados dos Estados Unidos supostamente para “estabilizar” o Médio Oriente.
Apesar de alguns membros da NATO identificarem o terrorismo e as pressões migratórias como as grandes ameaças resultantes da instabilidade no Médio Oriente, já os Estados Unidos encaram a situação segundo outra perspectiva: os desafios de segurança e da política externa relacionados com a Rússia. Em 2014, a NATO criou um centro nas suas instalações de Nápoles para coordenar actividades regionais consideradas cruciais para manter a segurança na área de intervenção meridional (que inclui o Mediterrâneo e o Médio Oriente – embora o centro não esteja operacional por falta do pessoal necessário). Pelo que, à primeira vista, a NMI poderia ser considerada como um apoio adicional à luta contra o terrorismo e as migrações descontroladas, de modo a atenuar o impacto das opiniões divergentes dentro da aliança e fortalecer a coesão entre os membros com diferentes percepções das ameaças.

Trump e a sua guerra

Costuma dizer-se, porém, que todos os presidentes dos Estados Unidos dos tempos modernos iniciaram uma guerra. Na verdade, entre os 12 presidentes republicanos do séc. XX apenas Warren Harding e Gerald Ford foram as duas nobres excepções, “compensadas” por vários presidentes democratas que seguiram as rotas dos falcões.
Será a NMI o prenúncio de uma guerra que Trump irá lançar?
A pergunta justifica-se, tendo também em conta que a recente visita de Trump ao Iraque foi bastante suspeita, sobretudo se for integrada no novo cenário resultante da criação da NMI.
O primeiro-ministro iraquiano, Adil Abdul-Mahdi, disse que só na própria manhã soube que estava iminente uma visita de Donald Trump. Estabeleceu então duas condições: “Ao aterrar no país, o presidente norte-americano teria uma recepção como as dedicadas a qualquer outro visitante com posição equivalente; em segundo lugar, haveria uma agenda com assuntos específicos e uma breve reunião”. A parte norte-americana concordou inicialmente com estes termos, mas depois desistiu.
Trump chegou à base aérea de al-Asad à noite e ficou cerca de três horas e meia. Não teve encontros frente-a-frente com qualquer autoridade iraquiana, apenas manteve um telefonema com Abdul-Mahdi.
O major-general iraniano Mohamed Hossein Bageri não esteve longe da verdade quando comentou o episódio afirmando tratar-se de uma “viagem humilhante e sorrateira”.
O próprio primeiro-ministro iraquiano, por seu turno, corrigiu relatos que davam conta de que Trump visitara uma base militar norte-americana. “Diz-se que o presidente norte-americano visitou uma base dos Estados Unidos, o que não é verdade”, afirmou. “Não há bases norte-americanas no Iraque; existem apenas bases iraquianas onde estão presentes alguns soldados norte-americanos e outros que o não são”, acrescentou Abdul-Mahdi.
Os discursos actuais de Trump sobre a Síria traduzem uma espécie de visão de um túnel do qual se aguarda uma saída. O “quadro geral” continua indefinido, a menos que as suas ramificações que conduzem à Missão da NATO no Iraque sejam devidamente compreendidas. Há relatórios que revelam como as operações militares norte-americanas em território iraquiano têm vindo a aumentar. O secretário de Estado norte-americano, Michael Pompeo, acabou de fazer “visitas de surpresa” a Erbil e Bagdade. E foi claramente displicente quando afirmou que “não há contradição alguma” na mudança da estratégia dos Estados Unidos em relação à Síria. Simplificando, Trump pretende expandir o cenário de guerra da Síria integrando o Iraque e arrastando o sistema da Aliança Atlântica nesse empreendimento.
Sem dúvida que chancelarias tão distantes como Paris, Berlim e Moscovo – e, certamente, Ancara, Telavive e Teerão – sentiram que há uma mudança de paradigma em curso.





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