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SUÉCIA VÍTIMA DA PRAGA NEOLIBERAL

2018-09-14

José Goulão, Estocolmo
Esqueça, para já, a complexidade da equação para formar governo na Suécia e deixe estar entre parêntesis a ameaça neofascista, mais uma no espaço europeu. O que as eleições gerais suecas de 9 de Setembro disseram, em primeiro lugar, é que não existe Estado social que resista eternamente à implantação do neoliberalismo puro e duro. Tudo o resto decorre daí.

Reis e senhores da política sueca ao longo de um século, os sociais-democratas sofreram nas recentes eleições gerais um desaire traduzido na sua mais fraca percentagem de sempre. Foram os mais votados, é certo; estiveram até acima do que vaticinavam as sondagens. Mas daí até continuarem a governar, o passo é muito longo.
Apesar de o primeiro-ministro em exercício e chefe social-democrata, Stefan Lofven, ter afirmado como primeira proclamação política, logo que conhecidos os resultados e a composição do Parlamento, que é “necessário acabar com a política de blocos”, isto é, pôr fim à tradicional dicotomia esquerda-direita e arranjar aliados à sua direita.
Convite que tão depressa foi feito como recusado. A direita convencional continuou a reagir em bloco, agora escorada, para o que der e vier, na certeza de que terá maioria absoluta se recorrer ao apoio dos neofascistas. O que não seria assim tão inverosímil, tendo em conta o que recentemente aconteceu na Áustria.
São muitas as teorizações dos “politólogos” sobre o que está a acontecer na Suécia, recorrentemente baseadas em análises superficiais e com suporte em acontecimentos que não englobam o significado profundo das transformações da paisagem política, económica e social do país nos últimos trinta anos.
O Estado social e a imigração
A declaração do primeiro-ministro em exercício logo que conhecidos os resultados eleitorais, propondo uma coligação à direita, não é inusitada. Ela defende afinal o reconhecimento, em termos institucionais, da realidade que tem existido durante as últimas três décadas.
De facto, as diferenças de prática política entre esquerda e direita suecas esbateram-se ou desapareceram mesmo desde que a neoliberalismo se foi implantando no país, primeiro através de um governo austeritário de direita para combater a chamada “crise de 1991-94”; depois assumida pelos próprios sociais-democratas ao sepultarem o capitalismo keynesiano apressando-se a seguir muitas das pisadas de Tony Blair e companhia.
Exemplo flagrante foi a gestão da “esquerda” praticada entre 2014 e 2018 pelo governo chefiado por Stefan Lofven, em coligação com os verdes, que não passou de um exercício de gestão neoliberal e que agora penalizou duramente os ecologistas, que estiveram mesmo à beira de não atingir o mínimo de quatro por cento para entrar no Parlamento.
O principal beneficiado desse castigo foi o partido “A Esquerda”, que subiu mais de dois pontos percentuais, para 7,9 por cento, crescendo 7 lugares no Parlamento, para 28 deputados.
Uma progressão que foi quase reduzida a zero, em termos de potencial governativo, uma vez que os verdes e os sociais-democratas perderam 22 deputados em conjunto. Resultado: o bloco à esquerda somou 144 deputados contra 143 do bloco de direita (Moderados, Centro, Democratas Cristãos e Liberais), ficando os neofascistas com uma imponente fatia de 62 deputados – garantindo uma eventual e confortável maioria absoluta de toda a direita, embora alguns sectores desse espectro ainda estejam pudicamente a fazer-se rogados. Quanto tempo durará a cerimónia perante tão risonhas perspectivas governamentais?
O raciocínio dominante através do qual pretende explicar-se a ascensão dos neofascistas a terceiro partido, com 17,6 por cento, é primário: os populismos nacionalistas estão a crescer em toda a Europa e o fenómeno, naturalmente, instalou-se na Suécia, país que recebe, historicamente, maior número de imigrantes em percentagem de população. Portanto, sendo os nacionalistas, por definição, contra a imigração o êxito dos Democratas Suecos (neofascistas) é natural – traduzindo um sentimento xenófobo profundamente enraizado na população.
O problema é o neoliberalismo
Aparentemente nada mais simples, mais lógico… E mais distorcido.
A mensagem central dos Democratas Suecos foi mais habilidosa do que a expressão primária e directa do xenofobismo autêntico que os caracteriza.
Eles, neofascistas, por definição situando-se nos antípodas do Estado social, tiveram o desplante de fazer campanha como seus ardentes defensores proclamando: ou Estado social ou imigrantes.
Habilidosamente, repete-se, o mediático Jimmie Akesson e seus seguidores – há muito expurgados dos folclores nazis que fizeram parte das suas origens – tocaram num problema que afecta maioritariamente a sociedade sueca, a degradação do Estado social, e relacionaram-no abusivamente com a imigração. Abusivamente, porque nenhum estudo sociológico conhecido regista uma inquietação crescente da generalidade dos suecos com a imigração. Pelo contrário, a taxa de descontentamento em relação à presença de estrangeiros é hoje menor do que foi no início do século.
O que raramente se vê focado nas análises políticas – e sabe-se por quê – é a relação directa entre a deterioração do Estado social, tão caro aos suecos na verdadeira acepção da palavra, e a implantação pura e dura do "regime de mercado”, com o cortejo de degradação dos serviços públicos que por definição acarreta.
Estas eleições gerais demonstraram, de facto, que os suecos estão descontentes com a constante deterioração dos serviços públicos, pelos quais continuam a suportar uma brutal carga fiscal.
Então, é importante lembrar alguns aspectos que conduziram a esta situação e pelas quais são responsáveis tanto os blocos “à esquerda” – sociais-democratas acompanhados ou não pelos verdes – como a Aliança ou bloco de direita, capitaneado pelos Moderados. O neoliberalismo é uma prática transversal a todos eles e por isso chegou-se a um ponto em que não é possível distingui-los – nem sequer nos resultados eleitorais – culminados com um “empate técnico” entre as duas alas. Isentos dessa penalização, e perigosamente recompensados, estão os neofascistas graças ao seu discurso contra o establishment, as elites partidárias, a aristocracia sindical – tudo embrulhado com a nociva tolerância perante a imigração – surgindo então eles como defensores do Estado social, que só poderá sobreviver se for reservado aos suecos verdadeiramente suecos.
A verdade, porém, é que onde entra o neoliberalismo sai o Estado social. As brutais privatizações de serviços como transportes, farmácias, correios e telecomunicações, de bancos e, principalmente, da saúde e escola públicas conduziram à deterioração de um ambiente social garantido a que os suecos se habituaram e pelos quais pagaram – e pagam - fatias importantíssimas dos seus salários. De tal maneira, por exemplo, que os sociais-democratas, com o acordo dos Moderados, se propõem agora gastar 20 mil milhões de coroas suecas (dois mil milhões de euros) para tentar reparar o fracasso que foi a privatização parcial do ensino.
Ao mesmo tempo, devido à repercussão interna da obsessão défice que afecta toda a União Europeia, a Suécia transformou-se num dos países que mais cortou em número de trabalhadores do Estado e em despesas públicas, apesar de os impostos sobre os rendimentos da maioria dos cidadãos se manterem elevados.
Com uma excepção importante e significativa: a das grandes empresas, que se tornaram-se beneficiárias líquidas de importantes “incentivos fiscais”, além de serem generosamente poupadas nas contribuições para a segurança social, dentro do princípio neoliberal “social democratizado” de que “o trabalho paga”. Entretanto, os desequilíbrios sociais e de rendimentos agudizam-se: a percentagem de riqueza nas mãos de apenas um por cento dos suecos cresce rapidamente, enquanto diminui, também em ritmo veloz, a que está nas mãos dos 10 por cento mais desfavorecidos.
São muitas, e pesadas, as circunstâncias que podem gerar descontentamento crescente entre os suecos e que vão muito além da explicação simplista e de teor xenófobo relacionada com a imigração. Há aspectos da sua qualidade de vida tradicional duramente atingidos; os sinais de pobreza tornaram-se crescentes; cada vez mais quem quer saúde tem que a pagar; o ensino continua a perder qualidade.
Enquanto as principais forças políticas, principalmente os sociais-democratas, não encararem estas realidades de frente, os neofascistas estarão a capitalizar jogando com a mistificação entre realidades e propaganda para se apresentarem de “mãos limpas” em relação a tudo o que vem contrariando o cidadão comum. E, no imediato, têm em seu poder a chave do governo.
O caso da Suécia vem apenas confirmar que a praga neoliberal e o seu cortejo de desequilíbrios sociais e austeridade é a grande responsável pela ascensão consistente dos populismos e neofascismos através da Europa.
A União Europeia diz-se preocupada com este problema, enquanto se recusa a admitir que são as suas receitas que o provocam.


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