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BRASIL COORDENA GOLPE CONTRA A VENEZUELA

Bolsonaro com John Bolton, o chefe da segurança nacional de Donald Trump

2019-01-18

José Goulão, com Luís O. Nunes*, Brasília

Ernesto Araújo, ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, esteve quinta-feira reunido em Brasília, durante 11 horas, com membros das oposições venezuelanas dirigidas pelo Departamento de Estado norte-americano para “discutir ideias de uma acção concreta” de modo a “restabelecer a democracia na Venezuela”.

Numa nota divulgada no final da longa reunião, na qual participaram representantes do chamado Grupo de Lima, uma extensão do Departamento de Estado com representação de governos de 12 países americanos, o Ministério brasileiro considera o governo da Venezuela como “um mecanismo de crime organizado que está baseado na corrupção generalizada, no narcotráfico, no tráfico de pessoas, na lavagem de dinheiro e no terrorismo.” No encontro participou igualmente uma representação da Organização dos Estados Americanos (OEA), entretanto transformada também numa correia de transmissão de Washington.
Num vídeo divulgado a propósito da reunião, o presidente Jair Bolsonaro disse que “continuaremos fazendo todo o possível para restabelecer a ordem, a democracia e a liberdade” na Venezuela. “Acredito que a solução virá brevemente”, acrescentou.
Acompanhado pelo ministro Ernesto Araújo, pelo venezuelano Miguel Angel Martin, autoproclamado presidente do Supremo Tribunal de Justiça no exílio, e por Gustavo Cinosi, em nome da OEA, Bolsonaro disse que “sabemos como este desgoverno” de Nicolás Maduro “chegou ao poder, inclusive com a ajuda de presidentes que o Brasil já teve, como Lula e como Dilma”, o que “nos torna, em parte, responsáveis pela situação em que vocês se encontram”.
Nos documentos divulgados e nas declarações prestadas faltaram ainda dados que permitam conhecer de maneira mais concreta a integração das oposições venezuelanas nas estratégias que vão sendo estabelecidas por Washington e o establishment brasileiro, como coordenador directo das suas orientações. Percebeu-se, contudo, que o alinhamento estratégico está longe de ser uma arma das oposições, entre as quais se registam divisões de fundo quanto à representatividade que cada uma diz possuir.

Prioridade ao fascismo

Tornou-se claro, porém, que o Brasil se transformou agora na ponta de lança da conspiração contra a Venezuela montada pelo do Departamento de Estado norte-americano. E que as organizações de cariz fascista são as que têm a preferência do actual regime brasileiro.
Em termos das oposições venezuelanas, por exemplo, Eduardo Bittar e Roderick Navarro, do movimento Rumbo Libertad, são olhados com desconfiança por “moderados” como António Ledezma, ex-presidente da Câmara de Caracas, e Júlio Borges, ex-presidente da Assembleia Nacional, que os qualificaram de “extrema-direita”. Os dois citados indivíduos são, no entanto, considerados próximos do deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente brasileiro que também participou na reunião e comanda a chamada “Cúpula Conservadora das Américas”, onde se juntam governos e movimentos assumidamente fascistas do continente. Eduardo Bolsonaro chegou mesmo a declarar que os fascistas Bittar e Navarro “são os únicos representantes reais da resistência neste encontro” de Brasília.
Em Caracas, um membro da Assembleia Nacional que falou com jornalistas na condição de anonimato disse que Bitar e Navarro se “aproximaram de Bolsonaro e dos filhos mas são uns loucos da resistência e essas coisas, são contra os partidos, contra a Assembleia Nacional, contra tudo”.
Os chamados “moderados” como Ledezma e Borges, pelo contrário, não consideram importante que existam um governo no exílio e um Supremo Tribunal no exílio; consideram importante a intenção de o proclamado presidente da Assembleia Nacional, Júlio Gaidó, se autodefinir presidente interino, operação em que é apoiado por Washington, segundo declarações do secretário de Estado, Michael Pompeo. Segundo Ledezma, Gaidó já é “o presidente constitucional da Venezuela”, replicando assim a posição dos Estados Unidos, do Grupo de Lima e da OEA de “não reconhecer a legitimidade” de Nicolás Maduro. Por outro lado, acrescentou Ledezma, “não vejo razão para formar um governo no exílio se já podemos ter um governo legítimo dentro da Venezuela”.
Ledezma e Borges retiraram igualmente qualquer legitimidade a Miguel Angel Martin, dito presidente do Supremo Tribunal no exílio, ao afirmarem que a existência deste órgão também não tem qualquer razão de ser.

A “Cúpula Conservadora das Américas”

No entanto, como sinal importante das preferências brasileiras actuais, o escolhido do presidente Bolsonaro para a reunião estrita que organizou e para participar no vídeo de divulgação foi Miguel Angel Martin, não apenas o presidente do Supremo Tribunal no exílio mas também um dos membros da Cúpula Conservadora das Américas, a par os fascistas Bittar e Navarro do Rumbo Libertad.
Num comunicado emitido imediatamente antes da reunião de Brasília, a Cúpula Conservadora afirmou que os partidos presentes na reunião através das figuras de Ledezma, Borges e outros são “uma falsa oposição venezuelana”. Eduardo Bolsonaro acrescentou a esta posição que “a luta por um governo venezuelano de transição no exílio é muito importante”.
As chamadas “oposições venezuelanas” acolhidas em Brasília são, como se percebe, apenas meios a utilizar como pretextos e figurantes dos planos para derrubar o governo legítimo da Venezuela estabelecidos fora da Venezuela.

*Contributos de Fábio Marakava, Marcelo Ribeiro, Carla Araújo, Andreia Jubé e Leila Souza Lima



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