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OBRADOR ATACA SABOTAGEM COM OS COMBUSTÍVEIS

Polícia mexicana nas estradas para combater o contrabando de combustíveis, uma forma de sabotagem económica contra o Estado e a empresa petrolífera pública Pemex

2019-01-14

Victor Farinelli, Carta Maior e La Jornada; adaptação de O Lado Oculto

Duas palavras tornaram-se muito comuns nos noticiários mexicanos durante estes primeiros dias do governo progressista de Andrés Manuel López Obrador (empossado no dia 10 de Dezembro passado): huachicoleo, um termo que se usa somente no México e significa roubo de combustíveis; e huachicolero, identificando as pessoas ou grupos organizados que se dedicam a esta actividade.

O huachicoleo transformou-se na primeira sabotagem contra Obrador como presidente, embora o problema já exista há alguns anos, sendo um poderoso e constante golpe contra a economia mexicana e a empresa pública petroleira Pemex. Calcula-se que os grupos organizados chegam a desviar até nove milhões de litros de gasolina por ano, o que resulta em cerca de três mil milhões de dólares norte-americanos de prejuízos para a empresa e o Estado mexicano.
O novo presidente decidiu encarar o problema e travar o desperdício de riquezas e recursos. As medidas tomadas até agora incluem maior capacidade de rastreamento dos camiões cisterna e até mesmo o fecho de válvulas em quatro dos 13 oleodutos do país sob suspeita de serem assaltados. Segundo o governo, estas medidas tiveram o efeito de diminuir a quantidade de camiões cisterna assaltados (de quase 800 veículos por dia para menos de 200), o que significa um corte diário dos prejuízos em cerca de 129 milhões de dólares.
Contudo, algumas localidades mexicanas estão a sofrer com a escassez de combustíveis devido às represálias das grandes redes de huachicoleo, que deixaram de revender o produto roubado no mercado negro e fogem com ele para o exterior do país (Estados Unidos, Guatemala ou Belize). Em alguns lugares mais distantes da região central, nos extremos norte e sul do país, é possível ver filas de até dois quilómetros, distúrbios entre consumidores e pessoas enchendo recipientes, açambarcando com receio da extensão da crise.
Diante desta situação, o governo pede calma à população e assegura que está a preparar um plano de contingência para as regiões mais afectadas. Por outro lado, assegura também que não retrocederá no processo de “limpeza” dentro da estatal Pemex, no que diz respeito ao desvio e roubo de combustíveis.

Antecessores não actuaram

Segundo Obrador, três presidentes que o antecederam (Vicente Foix, Felipe Calderón e Enrique Peña Nieto) conheciam em pormenor as cifras de roubos de hidrocarbonetos, mas não actuaram. “Foram omissos perante um problema que afectou a economia do país”, acusou o presidente.
Obrador afirma que o caso dos huachicoleos é diferente dos sistemas de informação sobre homicídios, em que a administração só recebe informações estatísticas quinzenais ou mesmo mensais. “No caso dos combustíveis, os governos anteriores recebiam relatórios diários revelando a situação, números sobre os assaltos, os valores de perdas para o país e a empresa; tinham toda a informação de que necessitavam para actuar, e não o fizeram”, assegurou o presidente em conferência de imprensa realizada no Palácio Nacional.
“Havia uma espécie peculiar de cegueira, de quem não queria ver. Como se podem ignorar roubos de quase mil camiões cisterna todos os dias? Era uma espécie de tolerância”, insistiu Obrador, que identificou os responsáveis: “todos os presidentes sabiam, desde Vicente Foix (2000-2006)”.
Questionado sobre se conversou sobre o assunto com o ex-presidente Enrique Peña Nieto, Obrador revelou que não foi tema dos diálogos realizados durante a transição, pois “só tomei conhecimento da dimensão do problema quando assumi o cargo”. Contudo, afirmou que “é evidente que ele sabia, tanto mais que já existe um sistema de informação estabelecido para esta realidade, diferente do que se pratica para recolher o número de homicídios e roubos comuns, que requerem mais tempo para elaboração das estatísticas”.

Apoio dos sindicatos

Através de um comunicado, o Sindicato de Trabalhadores Petroleiros da República Mexicana (STPRM), qualificou como “valente” a luta contra a corrupção na empresa Pemex e manifestou seu “apoio às ações impulsionadas pelo governo do presidente López Obrador para o combate ao huachicoleo”.
O texto, dirigido ao presidente e à opinião pública, assegura que “para que haja gasolina e gasóleo no México, é preciso `fazer uma limpeza´ no modelo de fornecimento e distribuição”; e pede à população que seja compreensiva com alguns dos primeiros efeitos que essas mudanças possam causar no que diz respeito a preços e à disponibilidade dos produtos.
O sindicato, liderado por Carlos Romero Deschamps, salienta que “os esforços do governo para erradicar a corrupção e impulsionar um novo modelo mais eficiente e transparente significarão maior honestidade na produção, fornecimento e distribuição dos combustíveis”.
O STPRM acrescenta que é preciso estabelecer uma “nova relação sindicado-empresa para que dela surja uma `nova era de produtividade´” e assegura que os problemas de escassez de combustíveis que se observam em algumas regiões “serão passageiros”. Trata-se de “um pequeno custo que temos de enfrentar para transformar a Pemex, mudá-la para melhor”, afirma o sindicato.


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