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COREIA DO NORTE, NOVO TIGRE ASIÁTICO?

Zona de Mirea (futuro), a Rua dos Cientistas em Pyongyang, capital da Coreia do Norte

2019-01-11

Jorge Fonseca de Almeida*, especial para O Lado Oculto

No ano passado as negociações entre o líder norte-coreano Kim Jong-un e o Presidente norte-americano Donald Trump encheram as manchetes com prognósticos do iminente colapso dos coreanos, quando na verdade elas demonstraram a solidez e a resiliência do país que tem vindo a resistir a múltiplos embargos, boicotes e sanções decretadas pelos Estados Unidos ao longo de várias décadas.

A designação de tigres asiáticos para incluir quatro territórios (Singapura, Taiwan, Coreia do Sul e Hong-Kong) que se industrializaram de forma rápida nos anos 60 do século passado pretendia assinalar a sua pujança económica e empresarial. Na verdade Singapura, Taiwan e a Coreia do Sul desenvolveram-se na base de uma política deliberada norte-americana de abrir o seu mercado às exportações daí provenientes.

Ao oferecer o seu mercado aberto e de consideráveis dimensões os norte-americanos conseguiram promover o desenvolvimento económico nessas regiões com o propósito de prevenir revoluções comunistas e de manter esses territórios firmemente na sua esfera de influência. Naturalmente à custa de outros países, nomeadamente Portugal, que poderiam com vantagem fabricar os produtos comprados aos tigres.

A Coreia do Norte não goza desse estatuto, bem pelo contrário, sempre incluída no grupo dos Estados inimigos que os norte-americanos visam esmagar a todo o custo.

Apesar disso, a Coreia do Norte tem vindo a fazer progressos notáveis na sua economia, contudo sempre boicotados por intervenção externa.

A estratégia de incorporação do investimento estrangeiro passa pela criação de zonas económicas especiais, tal como a China o fez no início do seu processo de industrialização, que permitem, sem prejudicar o tecido empresarial público nem a economia nacional, incorporar o contributo tecnológico de empresas de outros países.

Desta forma e, através de processos como o BOT (Build-Operate-Transfer, ou Construir-Operar-Transferir), é possível adquirir competências em novas áreas económicas.

A diversificação industrial e a proteção do ambiente podem também ser alcançadas mais facilmente nestas zonas delimitadas em que as empresas estrangeiras gozam de algumas vantagens fiscais mas têm de seguir regras precisas, de transferência de know-how e de proteção ambiental.

Atualmente a Coreia do Norte possui 4 zonas económicas especiais em funcionamento, mas em 2013 a Assembleia Popular aprovou a criação de mais 14 zonas deste tipo.

1. Região Industrial de Kaesong

Em 2002 a Coreia do Norte cria a Região Industrial de Kaesong (KIC) em colaboração com a Coreia do Sul. Aí as empresas dos dois países cooperaram intensamente e empresas como a Hyundai aí tinham fábricas. As indústrias presentes, bem diversificadas, incluíam empresas têxteis, de sapatos, de componentes para automóveis, de relógios, etc.). Um centro industrial moderno e muito competitivo.
 
No entanto, empurrada pelos Estados Unidos e como forma de pressão política a Coreia do Sul retirou subitamente, em 2016, todas as suas empresas aí estabelecidas e cortou o fornecimento de água e eletricidade ao complexo industrial, prejudicando a Coreia do Norte e dezenas de milhares, cerca de 50 mil, de norte-coreanos que trabalhavam nas empresas sul-coreanas.

A decisão foi muito controversa na Coreia do Sul, avançando o partido no poder com a teoria de que os norte-coreanos estavam a desviar os ordenados dos trabalhadores do complexo industrial para financiar o desenvolvimento de armamento nuclear. Um inquérito independente chegou à conclusão de que essa teoria não passava de uma mentira.

Este movimento prejudicou igualmente as empresas sul-coreanas, beneficiando as suas concorrentes norte-americanas num momento em que os Estados Unidos se começam a preocupar com o seu défice externo.

No final do ano passado, em consequência das negociações entre as duas Coreias foi anunciada a reabertura desta importante região industrial.

2. Região Económica Especial de Rason (Rajin-Songbong)
 
Criada nos anos 90, junto à fronteira com a China e a Rússia, o seu porto abriga intenso tráfego e a zona é muito procurada por empresas chinesas e russas. A proximidade a cidades russas com Valdivostok ou Slavianka e a cidade chinesa de Changchun, da província de Jilin, facilita essa dinâmica.

O porto de Rajin, alargado com a colaboração da Rússia, é já um dos principais portos exportadores da Coreia do Norte.

3. Ilhas de Hwanggumpyong e de Wihwa

Uma ilha no rio Yalu que faz fronteira entre a Coreia do Norte e República Popular da China. A ilha é dividida entre os dois países. A ilha de Wihwa, no mesmo rio, é inteiramente norte-coreana.

Nesta zona económica especial desenvolvem-se muitos projetos conjuntos entre a Coreia do Norte e a China, nomeadamente nas áreas das telecomunicações e da exploração mineira.

Em 2015 foi anunciada a construção de um comboio de alta velocidade entre as cidades de Shenyang e Dandong que servirá estas duas ilhas. O racional para a construção desta infraestrutura ferroviária encontra-se no facto de 80% do comércio entre a China e a Coreia passar por Dandong.

4. Wonsan-Monte Kumgang Zona Internacional de Turismo

Zona de Wonsan-Kalma

Pretende-se transforma esta área num centro de turismo e de logística e transportes com o apoio da China e da Rússia.
 Recentemente começaram os trabalhos da zona costeira de Wonsan-Kalma, situada na península de Kalma na baía de Wonsan, que tem as condições ideais para uma zona balnear, beneficiando também da proximidade do aeroporto internacional de Kalma e de um outro resort em Myongsasipri.

A zona de Monte Kumgang é ideal para o turismo de montanha, a prática de desportos de Inverno e a caminhada. As paisagens naturais são excepcionais e as acomodações novas.

Monte Kumgang

Empresas turísticas como a Koryo Tours asseguram a comercialização das estadias em todo o mundo, a preços acessíveis a muitos.

5. Pyongsong

Pyongsong, cidade a pouco mais de 30 quilómetros da capital, assume-se hoje como o Silicon Valley da Coreia do Norte, concentrando universidades, institutos de pesquisa científica e um conjunto de empresas de novas tecnologias, nomeadamente espaciais. A cidade alberga ainda importantes indústrias ligeiras de relógios, de automóveis, de componentes, de artigos de cabedal sintético, etc.
 
Criada nos anos 60 como a cidade da ciência, conta hoje com mais de 280 mil habitantes (12ª maior da Coreia do Norte). O seu nome foi-lhe atribuído por Kim Il-sung e significa “fortaleza que guarda Pyongyang”. A cidade tem conhecido nos últimos anos uma rápida expansão.

Conclusão

A economia da Coreia do Norte, apesar do permanente boicote norte-americano, das pesadas sanções, das dificuldades criadas de aquisição de matérias-primas e produtos intermédios, tem mostrado uma notável capacidade de adaptação e resiliência e diversificação.

As zonas económicas especiais tem um papel importante no desenvolvimento do país, permitindo que empresas estrangeiras desenvolvam as suas atividades com vantagem mútuas e sem pôr em causa a construção de uma sociedade socialista. A experiência chinesa, bom exemplo das vantagens destas regiões, parece ter sido apreendida pelos dirigentes coreanos. 
A palavra de ordem “Construamos uma potência económica” saída do VII Congresso do Partido do Trabalho, realizado em 2016, parece ter encontrado eco no país.

As palavras de Kim Jong-un “Todos os militantes do Partido e outros trabalhadores são responsáveis por acelerar a construção da economia socialista, convencidos da necessidade de dar primazia ao nosso Estado em qualquer situação e circunstância” (Voz do Povo, 2019) indicam uma intenção pacífica de concentração no desenvolvimento económico e no aumento do nível de vida dos coreanos.

Esperemos que desta vez intervenções externas não boicotem os esforços do povo coreano.

* Economista, MBA
Referências

Chol, Song (2019), Para o futuro mais brilhante do socialismo, A Voz do Povo, [online] http://avozdopovode1945.blogspot.com/, acedido a 8 de Janeiro de 2019

Dormels, Rainer (2014), North Korea's Cities, Seoul, Kong and Park
Song Chol

Frank, Ruediger (2016), The Economics of Kaesong: Examining the Numbers, [online] https://www.38north.org/2016/02/rfrank021916/, acedido a 7 de Janeiro 2016

LIM Ho Yeol e KIM Junyoung (2015), “DPRK’s Special Economic Zone Policies: Recent Development and Future Challenges”, World Economy Update, Volume 15, Número 16

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