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COMO FUNCIONA O IMPÉRIO MILITAR SECRETO

Sem palavras

2018-11-29

Maj. Danny Sjursen, Truthdig/O Lado Oculto

“A democracia morre na escuridão”. O jornal Washington Post reciclou esta velha máxima e adoptou-a no alvorecer da era Trump. Na verdade, os jornalistas do Washington Post não sabem da missa metade; nem se preocupam em informar sobre as reais causas do sigilo e crescente falta de transparência no Departamento da Defesa. Nada contra o Post – nem contra qualquer outro dos principais meios de comunicação.

Mas a realidade é esta: sob os narizes da maioria dos norte-americanos, os assuntos militares tornaram-se mais opacos durante os últimos anos; e agora poucos meios de comunicação têm especial interesse em cobrir a política externa. Esta situação deve preocupar todos os cidadãos.
Porque qualquer coisa que os militares façam, em qualquer dia que a façam, é feita em nome todos. Se forem assassinados civis, se forem restringidas as liberdades civis e alienados direitos, a culpa não será das forças armadas… Será de todos e cada um de nós! Se outra razão não houvesse, esta deveria bastar para suscitar especial atenção dos cidadãos de uma democracia activa. O exército é um instrumento agressivo, potencialmente brutal, pelo que o seu comportamento exige vigilância por parte dos cidadãos de uma democracia que se preze.

O segredo é a alma dos militares?

Só que isso está a tornar-se muito mais difícil no clima político dos nossos dias. Os militares norte-americanos são cada vez mais sigilosos em cada vez mais assuntos, classificam como confidenciais informações que anteriormente eram acessíveis e suprimem qualquer remanescente intenção de transparência. Não sou apenas eu que o escrevo: recentemente, o congressista Adam Smith, membro do Partido Democrático e da Comissão de Assuntos Militares da Câmara dos Representantes, abordou longamente este tema.
Não se iluda. Estas tendências vêm de trás e foram-se acentuando gradualmente. Por isso, as linhas que escrevo não significam qualquer ataque oco e liberal ao presidente Trump, que continua a ser, por razões legais e enquanto envergar este uniforme, o meu comandante em chefe. Ainda assim, já há muito tempo que é preciso alguém gritar do alto da montanha contra o império do secretismo em expansão nos Estados Unidos da América.
Embora haja muitos casos a estudar, uma coisa é preciso ter em mente: o exército não é um monstro monolítico. E consegue ser muito discreto em relação a algumas dessas situações. Os exemplos abundam.

Censura, mentiras, omissões, confusões

Há muito que as forças armadas detectaram e reconheceram a existência das ameaças resultantes das alterações climáticas; no entanto, receberam instruções para abolir o termo de todos os seus relatórios. Deve ser substituído por frases nebulosas (e indefinidas) como “clima extremo”.
Há também a questão da guerra do Afeganistão e seus supostos progressos ao fim de 17 anos. Uma das principais perspectivas de avaliação sobre a qualidade dos avanços deve ser o êxito ou fracasso das Forças Nacionais de Segurança Afegãs (FNSA). Durante alguns anos, o Departamento da Defesa divulgou as baixas anuais sofridas por este corpo, mesmo sendo alarmantes os valores. Os números de vítimas dentro das FNSA são francamente insustentáveis – os talibãs estão a matar mais membros do que aqueles que o governo consegue recrutar. As taxas de mortalidade são impressionantes: 5500 mortes em 2015, 6700 em 2016 e uma estimativa de “cerca de dez mil” em 2017. A razão pela qual não existe informação exacta sobre as baixas no ano passado resulta de – reconhecidamente a pedido do governo afegão – o assunto se ter recentemente tornado confidencial. Isto parece absurdo. De que maneira é que os legisladores e o público podem escrutinar a guerra mais longa em que os Estados Unidos estão envolvidos sem essas estatísticas-chave? A resposta é curta: não podem. E, deste modo, a guerra continua…
Além disso, o relacionamento historicamente desconfortável dos militares com a comunicação social tornou-se ainda mais frio. Como revelou Adam Smith, insurgindo-se contra o facto, o Departamento da Defesa publicou normas para restringir ou desencorajar os oficiais das forças armadas de fornecerem dados concretos sobre fabrico e controlo de armas nucleares e outros temas importantes. Só depois de prolongados protestos públicos os contactos desse tipo com a imprensa foram parcialmente restabelecidos. No entanto, tudo isto revela uma alarmante tendência para os comportamentos furtivos.
Outros exemplos podem acrescentar-se a um caldo tão perturbador. A Marinha deixou de divulgar publicamente os relatórios sobre acidentes. Além disso, os relatórios públicos de rotina sobre custos, cronogramas e desempenho de sistemas de armas dispendiosos foram rotulados como “somente para uso oficial”, a partir de 2017 – o que reforça a tendência para esconder dados do grande público expandindo o regime de “superclassificação”. Sem essas informações como podem a população e os seus representantes eleitos examinar com propriedade aquilo que o presidente (e general de cinco estrelas) Eisenhower qualificou apropriadamente como “o perigoso” complexo militar-industrial. É essa a intenção? Esperemos que não”.
Há ainda a salientar a existência de censura nas redes informáticas dos militares. Sites credíveis de esquerda como Tom Dispatch e The Intercept foram recentemente bloqueados em muitos computadores do governo. A razão que consta do aviso do firewall é serem veículos de “ódio e racismo”. Muitos leitores e cidadãos norte-americanos poderão não gostar dos conteúdos dessas publicações – o que é legítimo – mas qualquer um que tenha lido textos desses sites pode assegurar uma verdade evidente: não há absolutamente nada de odioso ou racista em Tom Dispatch ou The Intercept. As duas publicações são editadas e revistas dentro de padrões profissionais e, na verdade, divulgam materiais exclusivos, pois concentram-se em análise extensas e profundas.
O único crime desses sites, ao que parece, é serem realmente inclinados para a esquerda. Querem mais provas? Pois bem, adivinhem quais os sites genuinamente racistas e peritos em teoria da conspiração que não foram bloqueados nos computadores dos militares e do governo? Se pensou em Breibart e InfoWars, adivinhou. E até o Facebook e o Twitter tomaram medidas para banir o InfoWars de Alex Jones. Portanto, apenas uma conclusão pode extrair-se: publicações grosseiramente chocantes e ofensivas de direita são excelentes; publicações de esquerda respeitáveis e credíveis são aparentemente uma ameaça. Este tipo de tendência político-ideológica é inquietante numa entidade supostamente apolítica como o Departamento da Defesa.

Das duas uma…

Não tenho quaisquer dúvidas de que existem necessidades táticas que exigem sigilo em relação às informações militares. Vivi no gume dessa navalha e não descarto a sua inevitabilidade ocasional. Dito isto, constata-se, porém, que muito da fuga à transparência tem pouco a ver com a área dos conflitos militares e mais com a política. Nós, cidadãos, confiamos nos nossos militares desempenhando as suas enormes responsabilidades mas, como vivemos supostamente numa democracia, o exército tem de prestar contas ao Congresso e ao público. Nos dias que correm, porém, esse dever parece ser cada vez mais uma fantasia remota.
Tudo isto é importante; e os Estados Unidos têm uma escolha a fazer: podem ser um império ou uma genuína república. Não podem é ser as duas coisas.


*Major do exército dos Estados Unidos e colaborador regular do site Truthdig. Efectuou comissões em unidades de reconhecimento no Iraque e no Afeganistão. Professor de História na Academia Militar de West Point. Autor de um livro de memória e análise crítica da guerra do Iraque: “Ghostriders of Baghdad”.


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