O Lado Oculto é uma publicação livre e independente. As opiniões manifestadas pelos colaboradores não vinculam os membros do Colectivo Redactorial, entidade que define a linha informativa.

CASO KHASHOGGI: EUA PROTEGEM FAMÍLIA REAL SAUDITA

Foi Pompeo quem levou o plano a MBS para o ilibar das culpas que lhe são atribuídas pelo assassínio de Jamal Khashoggi (Mahmud Hams/AFP/Getty Images)

2018-11-23

David Hearst e Daniel Hilton, Middle East Eye/O Lado Oculto

O rei e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita estão a tentar proteger-se das consequências do assassínio de Jamal Khashoggi através de um plano estratégico elaborado pelo secretário de Estado norte-americano, Michael Pompeo, segundo uma fonte saudita da publicação Middle East Eye (MME).

O plano foi entregue pessoalmente por Pompeo durante uma reunião realizada no mês passado em Riade com o rei Salman e o seu filho e herdeiro, Mohammed bin Salman, acrescentou a mesma fonte, que está a par dos encontros do secretário norte-americano com os dirigentes sauditas.
O plano inclui uma opção para prender um membro da família Al-Saudi inocente do assassínio do jornalista, de modo a proteger os dirigentes de topo. Essa pessoa ainda não terá sido escolhida, porque os chefes sauditas estão a reservar o recurso a essa parte do plano para o caso de a pressão sobre bin Salman, também conhecido por MBS, se tornar excessiva, explicou a fonte.
“Não ficaríamos surpreendidos se tal acontecesse”, acrescentou. O Departamento de Estado negou as informações da fonte saudita, qualificando-as como “uma deturpação completa da missão diplomática do secretário de Estado à Arábia Saudita”.
“Falámos publicamente sobre os nossos objectivos: testemunhar à direcção saudita a importância que o governo dos Estados Unidos atribui ao rápido e total esclarecimento do assassínio de Jamal Khashoggi, disse à Middle East Eye a porta-voz do Departamento de Estado, Heather Nauert.
De acordo com a fonte saudita, Pompeo traçou o plano em 16 de Outubro, quando se deslocou a Riade para se reunir com o rei e o príncipe herdeiro, porque as repercussões do caso de Khashoggi estavam a ganhar intensidade a nível internacional.
A viagem de Pompeo a Riade aconteceu exactamente duas semanas depois de Jamal Khashoggi ter sido assassinado no interior do consulado saudita em Istambul, a 2 de Outubro. Poucos dias antes de o secretário de Estado aterrar na capital saudita, a MME revelou que Khashoggi foi morto e esquartejado minutos depois de entrar no consulado a fim de obter documentos pessoais de que necessitava para voltar a casar-se.
Enviado como conselheiro
Até à altura da deslocação de Pompeo, altos funcionários dos Estados Unidos – incluindo o presidente Donald Trump – tinham-se pronunciado muito pouco sobre o que aconteceu a Khashoggi, que se exilara voluntariamente em Washington.
O encontro do secretário de Estado com os dirigentes sauditas foi encarado com alguma desconfiança, numa altura em que organizações de direitos humanos de todo o mundo pediam a Washington que exigisse explicações aos seus aliados de Riade.
No dia seguinte à reunião de alto nível, Pompeo disse aos jornalistas que nem ele nem os seus interlocutores sauditas desejavam falar sobre o caso Khashoggi. “Eu não quero falar do assunto”, disse durante uma viagem para a Turquia; “e eles também não”.
A fonte saudita disse à MME que Pompeo foi a Riade para aconselhar a parte saudita sobre como lidar com as consequências do caso Khashoggi. Depois das suas reuniões, no entanto, acabou por explicar que recomendara aos sauditas a realização de uma investigação transparente.
“Tivemos conversas directas e francas”, disse. Eu destaquei a importância de realizar uma investigação completa, transparente e em tempo útil; a liderança saudita prometeu fazer exactamente isso”.
“A minha conclusão destas reuniões é de que existe um compromisso sério no sentido de apurar todos os factos e responsabilidades, incluindo as de altos dirigentes e altos funcionários da Arábia Saudita”, acrescentou o secretário de Estado.
No fim da semana passada, a CIA concluiu que o príncipe Mohammed bin Salman ordenou a morte do jornalista, segundo meios de comunicação norte-americanos. Desde então, Trump lançou dúvidas sobre as alegadas descobertas da agência de espionagem.
Já na terça-feira, numa declaração oficial, Donald Trump admitiu que tanto o rei Salman como MBS poderiam ter tido conhecimento desse “inaceitável e horrível crime”, embora tenha sublinhado que os Estados Unidos tencionam “ficar ao lado da Arábia Saudita”.
“As nossas agências de inteligência continuam a recolher todas as informações, mas pode muito bem acontecer que o príncipe herdeiro tivesse conhecimento desse trágico acontecimento – talvez tivesse, talvez não tivesse”, declarou Trump. “Deve dizer-se”, acrescentou, “que talvez nunca tenhamos conhecimento todos os factos relacionados com o assassínio de Jamal Khashoggi; em qualquer caso, as nossas relações são com o reino da Arábia Saudita”.
O presidente dos Estados Unidos ressalvou, no entanto, que tanto o rei como o herdeiro “negam qualquer conhecimento do plano para execução do assassínio”.

Blindando MBS contra as culpas

O plano de Pompeo entregue à direcção saudita inclui vários passos, revelou a fonte saudita.
Quando o secretário de Estado declarou, em 18 de Outubro, que a Arábia Saudita deveria dispor de “mais alguns dias” para concluir as investigações sobre o caso estaria a dar tempo para que Riade começasse a executar o seu pleno. “A liderança saudita fez tudo o que ele recomendou”, garantiu a fonte.
Durante a visita de Pompeo a Riade, a parte saudita permitiu que investigadores turcos entrassem no consulado de Istambul, ofereceu-se para coordenar uma investigação conjunta turco-saudita, enviou uma equipa a Istambul para prosseguir o apuramento dos factos e prendeu pelo menos 21 suspeitos.
O único passo que falta – acusar um membro da família real – poderá ser dado se as prisões dos suspeitos não tiverem o efeito desejado de aliviar a pressão sobre Riade, explicou fonte.
Enquanto isso, o rei Salman e MBS fizeram visitas através da Arábia Saudita, apareceram publicamente numa importante conferência de investidores em Riade e reuniram-se com os filhos do jornalista. Até agora, a investigação oficial saudita sobre o assassínio de Khashoggi implicou dois dos aliados mais próximos de Mohammed bin Salman: o subchefe da organização de espionagem política, Ahmed al-Assiri; e o assessor principal Saud al-Qahtani.
Ambos foram demitidos dos seus cargos, embora, segundo a fonte da MME, possam vir a ser transferidos para outras posições influentes. Sabe-se que nem Assiri nem Qahtani figuram entre os cinco suspeitos sauditas que o promotor público enumerou como sendo os que poderiam vir a enfrentar a pena de morte no caso de serem condenados por “ordenar e cometer” o assassínio.
Na quinta-feira da passada semana, o promotor público considerou que o chefe da equipa enviada para matar Khashoggi na Turquia – que se crê ser o guarda-costas de MBS, Maher Abdulaziz Mutrib – tomou a decisão por sua conta e risco.
O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou que a ordem para matar Khashoggi foi dada pelos “níveis mais elevados” da liderança saudita. Num artigo publicado no Washington Post, Erdogan escreveu que não acredita no envolvimento do rei Salman no assassínio.
A posição oficial saudita estabelece que MBS não tinha qualquer conhecimento do plano de assassínio e subsequente tentativa de encobrimento. No entanto, como a MME publicou anteriormente, sete membros do grupo de extermínio enviados a Istambul para matar Khashoggi eram membros da segurança pessoal de Mohammed bin Salman.




Mais notícias...

Iniciar sessão

Recuperar password

goto top