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UNIÃO EUROPEIA DISTRIBUI BODO AOS MERCENÁRIOS

Cães de guerra? Soldados da Fortuna? Mercenários? Nada disso: "segurança" paga com milhões arrancados dos bolsos de todos nós

2018-11-15

José Goulão; com Pilar Camacho, Bruxelas

Está consumado. A União Europeia vai pagar 125 milhões de euros à empresa Amarante Internacional por seis anos de segurança das suas instalações e pessoal no Afeganistão, um país ocupado pela NATO. Foi este o resultado do concurso efectuado. Porém, seguindo o conselho de um ex-dirigente da outra metade do consórcio vencedor, a Garda World, a execução do serviço irá ser subcontratada ao exército privado britânico Aegis Defense, com uma folha de serviços não totalmente limpa, por exemplo no Iraque, onde foi a mais bem paga organização mercenária contratada pelos Estados Unidos. Esta empresa, contudo, não participou no concurso: é apenas subsidiária da Garda.

Há exactamente um ano, a eurodeputada belga Hilde Vautmans fez uma série de perguntas ao Serviço Europeu de Acção Externa (SEAE) sobre o concurso para a segurança das suas instalações e pessoal em Cabul. As respostas não terão sido satisfatórias, pelo que a eleita pediu uma maior transparência em todo o processo; e tomou a iniciativa de fazer aprovar pelo Parlamento Europeu uma resolução exigindo uma regulamentação mais rigorosa das empresas de segurança privada.
Entretanto, continua a não existir uma resposta formal à pergunta mais importante relacionada com este negócio: por que razão a entidade que trata dos “Negócios Estrangeiros” da União Europeia esbanja uma fortuna distribuindo de mais de cem milhões de euros do dinheiro dos contribuintes por empresas de mercenários para se proteger num país ocupado pela NATO? Tanto mais que nenhuma das sociedades contempladas é um modelo de transparência, bom comportamento, idoneidade e eficácia. Os efectivos da NATO não dão garantias? A organização está em contenção de despesas perante devido aos gastos para se defender da “ameaça russa”? Estará mesmo a fazer poupanças no Afeganistão, onde os talibãs controlam mais território do que nunca, para poder continuar a organizar sucessivos, sumptuosos e provocatórios jogos de guerra?
Perguntas sem reposta e que deixam uma outra dúvida: o corpo expedicionário da NATO no Afeganistão não conseguiria fazer melhor do que aquilo que consta das folhas de serviço das agências de mercenários contempladas?

“Contraprodutivo e parasitário”

No papel, a entidade vencedora do concurso promovido pelo SEAE foi o consórcio Amarante International (francesa)/Garda World (canadiana, com sede no Québec).
A Amarante é um ninho de ex-espiões da DGSE (os serviços franceses de espionagem), dirigidos por Alexandre Hollander, polícia com uma carreira de dez anos no serviço público, a maior parte como chefe-adjunto da Unidade de Resposta e Rastreio do Ministério francês dos Negócios Estrangeiros e passagens por países de quase todo o mundo, do Médio e Extremo Oriente à América Latina e do Norte. A Amarante caracteriza-se, segundo os próprios dirigentes, como uma sociedade que não tem áreas especializadas mas clientes, embora afirme uma vocação para resgates de pessoas sequestradas por terroristas.
O cartão-de-visita da empresa parece ser o papel desempenhado pelos mercenários ao seu serviço na libertação de franceses sequestrados no Sahel, uma acção na qual a Amarante reclama o protagonismo.
Opinião que não é partilhada pelo chefe de turno da DGSE, que qualifica como “contraprodutivo e parasitário” o trabalho realizado pelos ex-colegas durante a operação.
A outra parte do consórcio, e uma espécie de pivot no processo de subcontratação do serviço de segurança das instalações da União Europeia em Cabul a uma empresa que nem sequer se apresentou a concurso, é a Garda World. O seu ex-representante em Bruxelas, e conselheiro do consórcio no processo de concurso, Didier Ranchon, é o autor da ideia de terceirização da empreitada.

Provoca o caos e aproveita-o

A Garda, de facto, não tem boa imagem no Afeganistão, principalmente junto dos dirigentes afegãos. Não se trata de qualquer manifestação de má vontade: a desconfiança vem desde 2013, quando o chefe executivo do ramo afegão da sociedade, Daniel Ménard, e mais dois agentes foram presos por contrabando de armas depois de descobertos em poder de umas dezenas de AK-47 clandestinas.
Não é apenas no Afeganistão que a fama da Garda World parece pouco recomendável. Na Líbia foi acusada de violar a resolução 1970 do Conselho de Segurança da ONU e as respectivas recomendações sobre abastecimento de armas a mercenários: “Rebeldes recorrem à Garda para os ajudar a cercar regiões onde Khaddafi é influente”, noticiou a agência financeira Bloomberg. “Rebeldes” eram os terroristas que a aviação da NATO ajudou a chegar a Tripoli para “libertar” o país e implantar o caos que ali se aprofunda.
Um caos perfeito para a Garda World, a empresa que hoje é líder do mercado da segurança privada na Líbia, onde aufere contratos altamente rentáveis na protecção das instalações petrolíferas, dos lugares onde efectivos da NATO treinam soldados de um suposto exército nacional, muitos dos quais acabam por se juntar às milícias; e também das instalações diplomáticas distribuídas por Tripoli e Benghazi.
Constituída sobretudo por ex-efectivos das forças especiais britânicas, a Garda tem uma filosofia: “onde houver distúrbios, isso é bom para o negócio”; e como “distúrbios” são válidos acontecimentos que vão desde “greves de estudantes a eleições no Egipto ou manifestações de trabalhadores”, segundo um destacado gestor instalado na sede, no Québec.

Aconselha-se “ser discreto”

E porque é aconselhável um perfil “discreto” para a Garda no Afeganistão, devido à tensão com sectores governamentais, surge a decisão de entregar a segurança das instalações da União Europeia em Cabul à sua filial britânica Aegis Defense Services.
O lendário mercenário Tim Spicer fundou a Aegis. A sua carreira como oficial britânico fez jus à fama que viria a ganhar depois como soldado da fortuna: veterano da guerra das Malvinas contra a Argentina, experiente em ocupação e repressão na Irlanda do Norte e na Bósnia. Depois de passar à reserva, Timothy Spicer foi mercenário em África, deixando rastos, por exemplo, na Serra Leoa e na Guiné Equatorial, onde foi mestre golpista.
Nasceu assim o seu exército privado da Aegis, que agora segura a instalações europeias em Cabul.
Antes disto, a Aegis foi a empresa de segurança que os Estados Unidos contemplaram com os mais chorudos contratos no Iraque, desde 2005. De dois em dois anos passaram a entrar nos respectivos cofres quantias superiores a 400 milhões de dólares, apesar de nem sempre as auditorias testemunharem o pleno cumprimento das obrigações contratuais. Sabe-se o que as organizações de mercenários fizeram às populações iraquianas em termos de respeito pelos direitos humanos; e a Blackwater não teve o monopólio das sevícias.
A eurodeputada belga Hilde Vautmans pediu transparência à União Europeia no processo de atribuição da segurança das suas instalações em Cabul, sobretudo porque as respostas de Bruxelas às suas perguntas não eram convincentes nem esclarecedoras. Finalmente, as histórias que envolvem o assunto acabam por responder às dúvidas e receios da deputada, do Parlamento, de todos os europeus. Na prática, a União está a praticar um bodo aos mercenários às custas dos cidadãos.


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