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21.694.906.926.249 DÓLARES: A DÍVIDA DOS ESTADOS UNIDOS

O National Debt Clock em Nova York quando ainda estava aos olhos de quem passava pela 6ª Avenida; aqui em 2011: veja a diferença: em sete anos, mais quatro biliões de dólares, quase seis vezes a dívida herdada por Ronald Reagan em 1980

2018-11-15

Martha Ladesic, Nova York; com Zero Hedge

No fim do mês de Outubro de 2018, a dívida soberana dos Estados Unidos da América era a seguinte, em dólares: 21.694.906.926.249, cerca de vinte e um biliões e meio (triliões, segundo o hábito anglo-saxónico), mais ou menos 150% do PIB. A média da União Europeia da dívida em relação ao PIB era de 81,6% em 2017, sendo a portuguesa de 125,7% no mesmo ano.

“Uma ameaça económica para a sociedade”, reconhece o conselheiro para a segurança nacional da administração Trump, John Bolton. Nada que pareça suficiente para inverter a tendência, uma vez que as estimativas de aumento no exercício de 2018 são de 769 mil milhões, de um bilião em 2019 e de 1,125 biliões em 2020, segundo o banco Goldman Sachs. Números que, segundo especialistas, terão sido responsáveis pela recente quebra das taxas de juros.
A instauração plena do regime neoliberal, no início dos anos oitenta do século passado, é a origem de uma cavalgada galopante da dívida soberana norte-americana. Ronald Reagan, o primeiro presidente a guiar-se pela ortodoxia ultraliberal, herdou uma dívida de 750 mil milhões de dólares e quase a triplicou em oito anos; Bush pai acrescentou 1,55 biliões e Bill Clinton seguiu-lhe o rasto, com 1,4 biliões. Veio Bush filho e somou-lhe 5,85 biliões em oito anos, largamente superado por Obama, com 8,59 biliões. (Quadro 1)

Quadro 1


Ainda assim, trata-se de números modestos perante a vertigem de Trump, que se prepara para somar quase cinco biliões à dívida, só nos quatro anos do primeiro mandato.
Para já, o neoliberalismo multiplicou por mais de 28 a dívida soberana norte-americana entre 1980 e 2018 – 38 anos. Na Europa comunitária, só o caso da Grécia é mais dramático, com 178,6% do PIB em 2017.
A situação nos Estados Unidos chegou a um ponto em que, logo a seguir à eleição de Donald Trump, o National Debt Clock (Relógio da Dívida Nacional) em Nova York, instalado desde 2004 na torre da Durst Organization, na Sexta Avenida, foi removido de um dia para o outro.

Quadro 2



As previsões muito graves para 2019 e 2020 assentam no facto de o Tesouro dos Estados Unidos estar a aumentar progressivamente o ritmo de emissão de dívida: 769 mil milhões durante o ano em curso, isto é, mais 19 mil milhões do que o endividamento acumulado herdado por Reagan em 1980. A situação está fora de controlo.

Trump promete medidas

O economista principal da Administração Trump, Kevin Hassett, revelou que o presidente irá anunciar brevemente medidas para resolver o problema, mas nada adiantou quanto ao seu conteúdo, perante o cepticismo geral. “O défice é absolutamente maior do que qualquer um gostaria”, disse Hassett, reconhecendo o óbvio.
Também John Bolton, o conselheiro de segurança nacional, não se arriscou a ir além do óbvio: “É um facto que, quando a dívida nacional chega ao nível da nossa, funciona como uma ameaça económica à sociedade que acaba por ter consequências sobre a segurança nacional”.
O conselheiro considera que, a curto prazo, o ataque ao problema deve ser desenvolvido através de cortes nas despesas discricionárias, que incluem os gastos do governo. Dessa estratégia serão excluídos os gastos com o Pentágono, cujo orçamento anual se aproxima dos 800 mil milhões de dólares e cresce de ano para ano; e também, seguramente, as despesas com as agências de segurança e de espionagem interna e externa. Numa conferência recentemente promovida, John Bolton limitou-se a fazer votos para que os gastos militares “estabilizem”, uma hipótese que a realidade põe fora de causa tendo em conta as previsões para os próximos orçamentos, e que seria absolutamente contranatura em relação ao histórico norte-americano.
Numa situação de grande contradição entre os pareceres estratégicos perante a tendência única do endividamento – a de crescimento acelerado – algumas opiniões consideram que o maior problema, a longo prazo, é com as despesas obrigatórias, uma vez que também a população norte-americana está a envelhecer e tal facto poderá reflectir-se nos já precários sistemas de segurança social e de saúde. John Bolton não é da mesma opinião e defende que não deverá haver cortes nessas áreas.
Em termos gerais, abundam os diagnósticos, faltam as medidas e não há quem trave a dívida soberana norte-americana. A unanimidade existe apenas em relação a um reconhecimento óbvio e factual: a dívida nacional e a dívida das famílias representam uma “ameaça severa para o mundo” e para o chamado “modo de vida americano”.
De notar que os valores relacionados com a actualidade, principalmente o previsto acréscimo de 769 mil milhões este ano, superam os despendidos por alturas da crise de 2008 para obviar às consequências das gigantescas irregularidades e fraudes de alguns dos principais bancos “que não podem falir”, e que os conduziram à beira da falência.


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