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GUERRA DO IÉMEN: SAQUE DE PETRÓLEO E JOGO ESTRATÉGICO

2019-08-03

Numa altura em que alguns meios de comunicação da ortodoxia neoliberal parecem ter acordado para uma agressão militar que dura há mais de cinco anos – e manipulam as circunstâncias do conflito – informações sobre o comportamento da Arábia Saudita no Iémen confirmam que se trata de uma guerra colonial para saque das riquezas naturais iemenitas, com o petróleo à cabeça. E também de uma estratégia contra o Irão.

Ahmed Abdulkareem*, em al-Mahrah, Iémen; MintPress/O Lado Oculto    

“As forças sauditas têm de retirar-se de todos os municípios e aldeias do Iémen, da costa ao deserto”, afirma Ahmed Balhaf, habitante da província de al-Mahrah, na região leste do Iémen. Uma região das mais poupadas pela guerra mas que, ao mesmo tempo, ajuda a expor as principais razões pelas quais a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, com apoio norte-americano, britânico e francês, mantêm uma invasão que já vai em mais de cinco anos: o saque de petróleo.

Os protestos pacíficos das populações da região Leste realizam-se com regularidade contra todo o tipo de violências cometidas pelos invasores, designadamente invasões selectivas de casas, sequestros de membros da população, utilização de munições reais contra protestos pacíficos e arbitrariedades contra os jornalistas com o objectivo de impedir que estes testemunhem o que está a passar-se.

Os protestos não pararam em meados de Julho, quando os Emirados Árabes Unidos anunciaram que estão a retirar as tropas do país, supostamente devido às ameaças iemenitas de ataques contra o Dubai se a agressão militar prosseguir. Apesar de êxitos alcançados pela resistência iemenita, designadamente Houthi, contra alvos sauditas e dos Emirados, muitos analistas afirmam que o anúncio de retirada de tropas se relaciona com um eventual reposicionamento estratégico em caso de agressão norte-americana contra o Irão.

Encorajados pelo anúncio de retirada – que traduz uma vitória parcial – os manifestantes do Leste do Iémen passaram a exigir que as forças sauditas transfiram para as autoridades iemenitas o controlo dos principais portos, incluindo Shehn, Sarfeet e Nashton e a reabertura do Aeroporto Internacional de Gheidah, entretanto transformado numa base militar saudita onde funcionam prisões secretas administradas pelos fundamentalistas de Riade.

Uma jogada estratégica

A presença saudita tem vindo a expandir-se na região de al-Mahrah, dominada pelos desertos estéreis do Iémen Oriental, confinando com o vizinho Omã. “Se os protestos pacíficos contra a sua presença não forem suficientes para forçar os militares sauditas a retirar-se encaramos a possibilidade de tomar outras opções para os obrigar a sair”, afirmou, durante uma manifestação, o sheik Ali Salem al-Harizi, ex-vice-governador de al-Mahrah.

No entanto, todos os indícios dados pelo comportamento saudita vão no sentido contrário. Além do aumento do contingente de tropas ocupantes, tem vindo a registar-se a construção de novos recintos militares e postos de controlo, levantando suspeitas de que se prepara uma presença por período longo no Iémen Oriental.

Em causa está, certamente, o interesse por reservas de petróleo inexploradas e potencialmente muito lucrativas.

A versão de Riade para o reforço militar é a necessidade de impedir o alegado contrabando de supostos carregamentos de armas iranianas e também o tráfico de drogas a partir de Omã. A Arábia Saudita não apresentou qualquer prova da veracidade destes argumentos, todos eles desmontados por autoridades iemenitas; e Omã nega de forma veemente os pretextos sauditas.

Os habitantes da região não têm qualquer dúvida de que as alegações do reino wahabita não passam de meros pretextos para a ocupação da província e o assalto aos seus recursos naturais.

“Não existe qualquer contrabando de armas para os Houthi”, testemunhou Ahmed Balhaf, um dos líderes dos protestos na província. “Os primeiros a saber disso são os sauditas, que controlam ferreamente todas as zonas fronteiriças e toda a província de al-Mahrah”, acrescentou. “Além disso, os Houthi têm vindo a demonstrar que são capazes de modernizar o seu armamento e, por outro lado, os sauditas estão a construir os seus novos campos militares precisamente nas áreas ricas em petróleo”.

A maneira como a Arábia Saudita desenvolve a presença militar nestas áreas que têm estado mais imunes à guerra é de tipo colonial. Os Houthi têm uma presença insignificante em al-Mahrah e concentram-se sobretudo em regiões ocidentais do país. Há anos que províncias como al-Mahrah e Socotra estão, de facto, sob domínio saudita e dos Emirados, funcionando como um protectordo.

A Arábia Saudita tem realmente um interesse estratégico na província. Em Setembro último iniciou a construção de um oleoduto em al-Mahrah que pode permitir transportar petróleo directamente para o Mar da Arábia, evitando o Estreito de Ormuz, controlado pelo Irão. Depois dos suspeitos e inexplicados incidentes com petroleiros no Golfo Árabe-Pérsico, e que serviram de pretexto para que os Estados Unidos e o Reino Unido aumentassem a presença militar na região, a Arábia Saudita reforçou ainda mais as suas actividades militares em al-Mahrah. O objectivo principal é o de concluir a construção do oleoduto o mais rapidamente possível, retirando assim ao Irão a importante vantagem estratégica que resulta do controlo sobre o Estreito de Ormuz.

*Jornalista iemenita que cobre a guerra para o website MintPress e para vários meios de comunicação do Iémen.






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