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OS HOUTHI LUTAM PELA SOBERANIA DO IÉMEN

A constante destruição do Iémen é obra saudita e norte-americana; os Houthi combatem pela soberania e a independência do país

2019-05-19

Dave DeCamp, Antiwar/O Lado Oculto

As tensões entre os Estados Unidos e o Irão estão a aumentar enquanto a guerra no Iémen volta a intensificar-se. O conselheiro de segurança nacional de Trump, John Bolton, advertiu o Irão de que “estamos totalmente preparados para responder a qualquer ataques, seja por procuração, pelo Corpo de Guardas da Revolução Islâmica ou por forças regulares iranianas”. O perigo desta clara ameaça é a inclusão da palavra “proxy” – por procuração ou por interpostas organizações.

É vulgar identificar os Houthi do Iémen como representantes do Irão. Em Novembro de 2018, numa espécie de resposta às críticas sobre as boas relações entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita após o assassínio do jornalista Jamal Khashoggi, o Washington Post escreveu que “o Irão é responsável por uma sangrenta guerra contra a Arábia Saudita no Iémen, por tentar desestabilizar a frágil tentativa de democracia no Iraque, por apoiar o grupo terrorista Hezbollah no Líbano, por apoiar o ditador Bachar Assad na Síria (que já matou milhões dos seus próprios cidadãos) e muito mais, da mesma maneira que os iranianos mataram muitos norte-americanos e outras pessoas inocentes em todo o Médio Oriente”.

Textos deste tipo contribuem para que Trump defina quem são os “proxies” iranianos, quem pode agir por conta de Teerão, mas ignoram a história do Iémen e dos Houthi.

Inspiração milenar

Os Houthi tiveram origem num grupo conhecido por Shabab al-Mumanin (Juventude Crente) que no início dos anos noventa desenvolveu esforços para cativar a juventude iemenita para o zaydismo, uma seita xiita do Islão. O zaydismo tem uma história profunda no Iémen e o norte deste país foi governado por imãs Zaydi durante mil anos.

Em 1962, com a ajuda do exército egípcio, os republicanos derrubaram o último imã Zaydi e proclamaram a República Árabe do Iémen. O zaydismo foi desencorajado pelos governos republicanos enquanto o wahabismo salafita, importado da Arábia Saudita, foi ganhando espaço. A República Árabe do Iémen e a República Popular Democrática do Iémen ou Iémen do Sul unificaram-se em 1990, depois do colapso da União Soviética.

Hussein al-Houthi (que deu o nome ao movimento) foi um activista político zaydi e membro do parlamento entra 1993 e 1997, além de fundador da Juventude Crente. Os Houthi opuseram-se então ao presidente Ali Abdullah Saleh, acusando-o de corrupção e de ser apoiado pelos Estados Unidos e a Arábia Saudita. O grupo militarizou-se gradualmente, sobretudo a partir do momento em que Saleh apoiou a invasão do Iraque pelos Estados Unidos – o que foi um ponto de viragem no país. Os Houthi, então designados oficialmente Ansar Allah (Apoiantes de Deus), passaram a orientar-se por slogans comuns a outros grupos radicais islâmicos.

As forças leais a Saleh tentaram prender al-Houthi em 2004 na província de Saada, no norte do Iémen. Os Houthi resistiram e assumiram o conflito armado com o governo do Iémen, que por sua vez recebia apoio e assistência militar da Arábia Saudita. Embora Hussein al-Houthi tenha sido morto durante a primeira guerra, em 2004, o pai, Badr al-Din al-Houthi, e o irmão, Abd Malik al-Houthi, assumiram o movimento e continuaram a lutar contra Saleh até 2010.

A agressão saudita

Na Primavera de 2011, os Houthi juntaram-se aos protestos em massa contra o presidente Saleh, que o obrigaram a renunciar. O vice-presidente de Saleh, Abd Rubbo Mansour Hadi, tornou-se presidente do governo de transição e o parlamento manteve-se em funções. Aos olhos dos Houthi, não houve uma mudança da situação contra a qual eles combateram entre 2004 e 2010. Os Houthi retomaram a luta contra o governo e em 2014 conseguiram chegar a Sanaa, a capital. Quando começaram a assumir o controlo do país estenderam a sua influência também ao sul, capturando sectores de Adem – a capital deste sector – em 2015. Na altura, o presidente Hadi fugiu para a Arábia Saudita. Os sauditas iniciaram a sua campanha militar contra o Iémen, com apoio total dos Estados Unidos, em 26 de Março de 2015.

Depois da ameaça de Bolton contra o Irão e a colocação do porta-aviões USS Abraham Lincoln no Médio Oriente, os Houthi lançaram um ataque com drones contra um oleoduto saudita a oeste de Riade. O que pode ser encarado como um ataque “aos interesses dos Estados Unidos” ou a um “dos nossos aliados”, como foi formulado na declaração ameaçadora de Bolton.

A Arábia Saudita respondeu com um bombardeamento aéreo de Sanaa, matando pelo menos seis civis e ferindo dezenas de outros.

É muito difícil identificar o envolvimento do Irão no movimento Houthi, mas parece bastante irresponsável que jornalistas o qualifiquem como um grupo “rebelde apoiado pelo Irão”, como muitos fazem. A acusação mais comum formulada contra o Irão é a de que este país arma os rebeldes Houthi, mas a verdade é que armas não faltam no Iémen: em 2013 foi o país que, de acordo com os Estados Unidos, gastou mais dinheiro per capita em armamento importado.

A Marinha dos Estados Unidos apreendeu algumas remessas de armas para o Iémen, mas é difícil determinar as suas origens. Teerão nega que tenha enviado armas para os Houti, realçando que só apoia politicamente o movimento.

Existem informações segundo as quais armas norte-americanas vendidas à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos têm depois sido entregues a grupos terroristas ligados à al-Qaida, que no Iémen lutam contra os Houthi.

A breve história dos Houthi demonstra a ignorância de Trump quando culpa o Irão pela guerra no Iémen. Alguns críticos da política dura da administração norte-americana contra o Irão tendem a poupar o presidente culpando preferencialmente Bolton e o secretário de Estado Mike Pompeo; mas Trump empenhou-se em acabar com o acordo nuclear que fora estabelecido internacionalmente com o Irão. Sem dúvida que isto foi um passo para a deterioração das relações diplomáticas com Teerão.



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