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WASHINGTON APOSTA NA PAPUA PARA “CONTER A CHINA”

A ilha de Manus e a base naval de Lombrum, na Papua Nova Guiné

2019-01-10

Andrew Korybko*, Eurasia Future/O Lado Oculto

A Austrália pretende voltar a utilizar a Base Naval de Lombrum, na ilha de Manus, que ocupava na Papua Nova Guiné antes de este país se ter tornado independente, em 1975. Trata-se de mais um episódio dos jogos de poder na região do Pacífico Sul e no âmbito dos quais os Estados Unidos e aliados regionais pretendem “conter a China”.

A notícia da intenção de reocupação de Lombrum pela Austrália começou a circular muito recentemente. O governo australiano considera que começam a diluir-se os ecos chocantes provocados pela escandalosa e desumana gestão que praticou no chamado “campo de imigração offshore”, que até há um ano manteve em funcionamento na Papua Nova Guiné. Por isso, entende que é chegada a altura de competir directamente com a China num território que considera no interior da sua “esfera de influência”. Este objectivo encaixa-se igualmente nas pretensões dos aliados australianos no Quad – Quadrilateral Security Dialogue, uma organização informal que integra ainda a Índia, o Japão e os Estados Unidos. A vontade comum: “conter a China” nesta ampla região do Pacífico Sul.
Através de escândalos e notícias falsas envolvendo supostamente a China, a Austrália tem vindo a preparar o terreno para “justificar” a expansão da sua influência na região através de meios militares, não sendo segredo que os Estados Unidos estão por detrás das movimentações, invocando a convergência de interesses na contenção da influência chinesa.
A China, pelo seu lado tenta inserir os Estados do Sudoeste do Pacífico na sua estratégia “Cintura e Estrada” através de empréstimos e investimentos que favoreçam o traçado de rotas de comunicação; e que, por acréscimo, contribuam para uma mudança de posição dos países da região que ainda reconhecem o regime de Taiwan. Pequim pretende, designadamente, garantir a operacionalidade de linhas de comunicação marítima com a América do Sul. As políticas económicas chinesas nesta área, portanto, têm objectivos simbólicos mas também bastante concretos.

Retorno acompanhado

O relevo estratégico do regresso da Marinha australiana a Manus é acrescido em relação a situações anteriores, uma vez que poderá ser feito na companhia de meios militares norte-americanos. Os Estados Unidos têm todo o interesse em controlar o espaço marítimo entre a ilha de Manus e Guam, sabendo que isso será da maior importância numa situação de crise com a China.
A presença chinesa na China na região é estritamente económica, mas da parte dos membros do Quad existe a ideia de que a movimentação marítima pelas novas rotas que desenvolve possa servir a Pequim para recolher secretamente informações sobre actividades de navios militares norte-americanos, australianos e japoneses em toda a região.
A Austrália, como aliado preferencial de Washington na zona, e recorrendo ao seu suposto legado histórico de liderança em toda a região, é o país indicado para servir de porta de entrada dos Estados Unidos na Papua Nova Guiné. Em causa está a importante localização geoestratégica deste território, as suas vastas riquezas naturais e também o interesse em combater a rápida expansão chinesa.
A Papua Nova Guiné é o território mais populoso desta região do Pacífico e a sua integração na esfera de influência anglo-saxónica, através do regresso militar da Austrália, é interpretado no Quad como um factor favorável à cooptação de outros países circundantes.
As mesmas razões motivam o interesse da China na Papua Nova Guiné, tanto mais que o segundo maior país vizinho, as Ilhas Fiji, já anteriormente foi “convencido” a ficar do lado norte-americano, desde que assinou simbolicamente a coligação anti-Daesh.
Os jogos regionais de poder desenvolvem-se, portanto, em frentes diferentes. Os membros do Quad, sobretudo Estados Unidos, Austrália e Japão, pretendem concentrar esforços militares na Papua Nova Guiné e nas Ilhas Fiji para tentarem tirar proveitos económicos e geoestratégicos, travando a influência crescente da China na região; Pequim, por seu turno, investe economicamente para extrair dividendos directos e, sobretudo, para desenvolver a sua estratégia no sentido de estabelecer mais profundos e fluidos corredores de navegação intercontinental. As supostas tarefas militares que os adversários dizem recear – eventuais recolhas de informações sobre os seus movimentos militares, conseguidas como subprodutos das movimentações comerciais – serão vantagens menores se comparadas com a ocupação de bases militares como a de Lombrum, na ilha de Manus na Papua Nova Guiné.

*Analista político norte-americano baseado em Moscovo, especialista nas estratégias dos Estados Unidos em África e na Eurásia e no projecto “Cintura e Estrada” da China.


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