O Lado Oculto é uma publicação livre e independente. As opiniões manifestadas pelos colaboradores não vinculam os membros do Colectivo Redactorial, entidade que define a linha informativa.

CUBA, A REVOLUÇÃO E A TECNOLOGIA

Prioridade à utilização de informática no ensino

2018-12-27

Alexandre Weffort, especial para O Lado Oculto

Comemoram-se a 1 de Janeiro os 60 anos da marcha vitoriosa do
movimento liderado por Fidel Castro em Cuba – o cumprir de seis décadas de revolução. O
propósito deste texto é reflectir sobre a questão tecnológica, nomeadamente no âmbito da
comunicação, numa sociedade marcada por singularidades várias, entre elas aquelas que
resultam da sua condição insular, as que derivam do bloqueio norte-americano (que acompanha
estas seis décadas de revolução) e aquelas que derivam da política adoptada internamente, pelo
governo cubano (sobretudo, da prioridade assumida a nível da educação).

Reflexão feita com base num olhar exógeno, de quem apenas conheceu solo cubano numa
oportunidade (em 1978, durante o 11º Festival Internacional da Juventude e dos Estudantes,
realizado em Havana), conhecimento cotejado com informações mais recentes (acerca das
transformações ocorridas nos últimos anos (e obtidas através da internet), visa indagar o actual
estádio de desenvolvimento do processo revolucionário cubano com recurso a dois conceitos
dialecticamente relacionados: da individuação e da socialização.

Nos antípodas – a ingerência da intelligentsia imperialista

A agressão norte-americana a Cuba é sobejamente conhecida (mas insuficientemente
reconhecida), feita sem qualquer pejo moral ou intenção de maior ocultamento. O bloqueio
imposto a Cuba pelos EUA é uma das condicionantes de maior peso a considerar quando se
aborda o tema das tecnologias da informação.
Um documento (datado de 1998 e hoje de acesso público) publicado pela "National Security
Research Division" da RAND Corporation, instituição de pesquisa ligada aos meios militares norte-americanos,
revela o modo de pensar da grande potência sobre o seu pequeno vizinho insular.
Com algum velamento ideológico (viés tido por necessário, pois o documento cumpre também
uma função de propaganda), coloca como objectivo a mudança de regime, ou seja, o abandono
da via socialista seguida por Cuba. E procura estabelecer uma metodologia para alcançar aquele
propósito.
A abordagem feita é de âmbito sistémico, tendo como propósito a promoção da mudança
(eufemisticamente apelidada de "reforma") do sistema socialista, com vista a um retorno ao
capitalismo. São consideradas três categorias analíticas: pré-condições estruturais, aceleradores
e liderança. Citando:
Pré-condições estruturais consistem em pelo menos quatro elementos: um período prolongado
de declínio económico; decadência social; ampliando o fosso tecnológico com os concorrentes; aumentando os fluxos de informação. Aceleradores incluem o seguinte: choques externos
imprevistos; avanços tecnológicos que ameaçam o poder do regime; sinais de fraqueza do
regime (que vão desde distúrbios populares, aumento de actores da sociedade civil ou críticas
abertas de dentro, combinadas com uma resposta fraca do regime a tais eventos)
(1).
O elemento-chave apontado pela RAND para o desencadear de um processo de mudança política
foi sempre colocado na questão da liderança carismática de Fidel Castro, em relação a quem os
EUA esperaram e desesperaram pelo seu desaparecimento (recorde-se: o líder histórico da
revolução cubana foi alvo de cerca de 600 tentativas falhadas de atentado por parte da CIA, tendo
falecido em 2016, aos 90 anos de idade). Os autores do relatório citado tiveram, todavia, de
esperar ainda 18 anos para ver surgir a condição enunciada e, assim, tentar verificar a sua teoria.
Importa-nos reter o modo como foi equacionada a questão tecnológica, enquanto elemento
"acelerador" do processo de mudança, e a sua relação com os "fluxos de informação", apontados
no âmbito das condições estruturais.
Mas será também necessário reter um outro conceito: "choques externos imprevistos" e, na
tipificação deste, uma referência ao fim do embargo dos EUA e, depois de incentivar uma maior
abertura da economia cubana em relação a mecanismos de mercado em moldes capitalistas, o
afirmar de uma nova linha-dura por parte do Presidente dos EUA (como, aliás, acontece nesta
altura com Donald Trump), com a criação de perturbações ao processo encetado (frustrando
expectativas criadas), a "actos provocativos da comunidade exilada" (nomeadamente, em Miami)
ou a "renovado isolamento internacional" (como aconteceu em relação ao Brasil, com as
provocações de Bolsonaro, levando à retirada de Cuba do programa "mais médicos").
Em relação aos chamados "choques externos imprevistos" como elemento da estratégia
imperialista dos EUA, Fidel Castro detinha clara consciência do modus operandi norte-americano, ao
analisar o problema tecnológico que terá desencadeado o colapso da URSS (a longa citação
justifica-se pela clareza da exposição):

Para automatizar la operación de válvula, compresores e instalaciones de almacenaje
en una empresa tan inmensa los soviéticos necesitaban sistemas de control
sofisticados. Compraron computadoras de los primeros modelos en el mercado
abierto, pero cuando las autoridades del gasoducto abordaron a Estados Unidos para
adquirir el software necesario, fueron rechazados. Impertérritos, los soviéticos
buscaron en otra parte; (...) La inteligencia estadounidense, avisada por el agente del
dossier Farewell, respondió y manipuló el software antes de enviarlo.
Una vez en la Unión Soviética, las computadoras y el software, trabajando juntos,
hacían operar el gasoducto maravillosamente. Pero esa tranquilidad era engañosa. En
el software que operaba el gasoducto había un caballo de Troya (...) Con el objetivo de
afectar las ganancias de divisas provenientes de Occidente y la economía interna de
Rusia, el software del gasoducto que debía operar las bombas, turbinas y válvulas
había sido programado para descomponerse después de un intervalo prudencial y
resetear (...) Afirma Thomas Reed en su libro: El resultado fue la más colosal explosión
no nuclear e incendio jamás vistos desde el espacio. (...)
El presidente Ronald Reagan jugaba su carta de triunfo: la Iniciativa de Defensa
Estratégica/Guerra de las Galaxias. Sabía que los soviéticos no podían competir en
esa liga, porque no podían sospechar que su industria electrónica estaba infectada
con virus y caballos de Troya colocados allí por la comunidad de Inteligencia de
Estados Unidos. La ex primera ministra británica [Margaret Thatcher], en sus
memorias, (...) expresa que todo el plan de Reagan relacionado con la Guerra de las
Galaxias y la intención de hacer colapsar económicamente a la Unión Soviética fue el
plan más brillante de esa administración, y que condujo definitivamente al derrumbe
del socialismo en Europa (2).

A questão tecnológica revela a sua importância política – como assinalava Fidel Castro – no
âmbito da guerra económica, uma face permanente da geopolítica global. E, como poderemos
constatar, numa situação de bloqueio económico (que implica também o bloqueio tecnológico e
em matérias primas), Cuba desenvolveu uma política tecnológica e de informatização dos meios
de comunicação tendo como critério fundamental a defesa da sua soberania, ou seja, uma política
de soberania tecnológica.

Tecnologia e comunicação – nos caminhos da Revolução

Em Fevereiro de 1958, um ano antes da vitória das forças rebeldes, surgia na "Sierra Maestra" a
"Radio Rebelde", criada por iniciativa de Che Guevara. Esse primeiro passo de âmbito tecnológico,
dado pelo movimento revolucionário liderado por Fidel Castro, sinaliza o entendimento sobre a
questão tecnológica e o papel da comunicação no processo histórico.
Em 1969, Cuba produziu a sua primeira máquina de computação (CID 201) aplicada na gestão
dos meios de transporte da indústria do açúcar. Em setembro de 1987, surge uma estrutura
dedicada ao ensino da informática aos jovens cubanos ("Joven Club de Computación y
Electrónica"). Esta estrutura descentralizada expandiu-se de 32 unidades localizadas nas diversas
capitais de província, atingindo hoje o número de 600 unidades, empregando cerca de 1500
técnicos e dando formação em informática a mais de 4.5 milhões de utilizadores. Em 2002 é
criada a Universidade das Ciências Informáticas, em Havana, instituição que realizou a versão
cubana da plataforma linux "Nova", agora na 6ª versão, permitindo o acesso a um sistema
operativo plenamente funcional e a software livre, dirigido tanto ao uso pessoal como à
informatização de postos de trabalho. Em 2009 é criada a "ECURED" (enciclopédia colaborativa
cubana), que conta já com mais de 190 mil artigos e 285 mil documentos. Por fim, nesta
enumeração, Cuba inicia em 2016 a produção nacional de portáteis e "tablets".
Presentemente, coloca-se no horizonte o estabelecimento da conexão de Cuba ao resto do
mundo através de em cabo submarino, que ligará a maior ilha do Caribe à Jamaica e à Venezuela,
considerado a maior mudança tecnológica a realizar-se nestes anos na esfera das comunicações
cibernéticas. Até então, as comunicações faziam-se com recurso a ligações via satélite, com
custos naturalmente elevados. Na propaganda anti-cubana, e nas análises mais ligeiras que se
produzem nos meios ocidentais sobre a internet em Cuba, é enfatizado o desnível do acesso à
rede global e colocada a questão como sendo uma característica ideológica ou consequência
negativa do regime socialista e da revolução. Nestas pseudo-análises procuram ignorar o bloqueio
norte-americano e o facto de esta ser uma das consequências políticas explicitamente pretendidas
pela política de agressão imperialista.

Fases tecnológicas na comunicação e etapas históricas da revolução cubana

O desenvolvimento tecnológico na área da comunicação, observado ao longo do século XX,
apresenta fases que podemos correlacionar com as etapas históricas da revolução cubana.
Assim, em traços largos, será o paradigma energético a conduzir as alterações tecnológicas
fundamentais.
A energia eléctrica aparece já nas reflexões de F. Engels (Dialéctica da Natureza). No entanto, o
estado ainda incipiente da ciência à época não permitia uma antevisão da importância desta forma
de energia no processo produtivo. Marx e Engels testemunharam e integraram nas suas análises
a afirmação da energia mecânica da primeira revolução industrial, marcada pela transducção da
energia térmica em energia motriz, através pela máquina a vapor. O séc. XIX testemunhou como a
máquina a vapor a veio a produzir a alteração dos meios de circulação humana, com o surgir dos
caminhos de ferro, da mesma forma como o séc. XX testemunhou a alteração da mobilidade
humana proporcionada pelo motor de combustão. No sec. XXI assistimos já a nova alteração neste
âmbito, com a afirmação da energia eléctrica como base da mobilidade.
Nos processos comunicacionais, o conhecimento da electricidade e sua plena inclusão inicia-se
em finais do séc. XIX, com o telégrafo e, depois, o telefone. E, depois, ao longo da primeira
metade do sec. XX, com o surgir da transmissão via rádio, veremos surgir a comunicação sem fios
(do rádio e da televisão). As formas comunicacionais de um-para-muitos (emissões de rádio e
televisão) irão combinar-se com as formas de comunicação ponto-a-ponto (como o telefone).
Combinações destas formas surgirão com a crescente miniaturização e portabilidade dos
equipamentos (do transceptor de mão ou "walkie talkie", surgido na Segunda Guerra Mundial, aos
"smartphones" actuais), numa linha contínua de crescente imposição do paradigma eléctrico nos
processos comunicacionais.
Da electricidade como força direccionada ao uso humano veremos surgir os conceitos de
electrónica, de informática e de cibernética. Nos tempos actuais, a miniaturização dos
equipamentos foi acompanhada pela redução da energia requerida para o funcionamento dos
mais diversos dispositivos. Vários sentidos humanos (nomeadamente o auditivo e o visual) são
estendidos através de dispositivos específicos (os altifalantes e auscultadores, os ecrãs) e,
também, a capacidade de lembrança (a memória, termo que se usa aplicar aos recursos de
armazenamento das dispositivos informáticos) e a de relacionar os diversos estímulos (presentes
e pretéritos) por meio de algoritmos que buscam imitar as capacidades intelectivas (com o surgir
da chamada "máquina inteligente").
Cada passo dado neste caminho de transformação tecnológica acarreta o desenvolvimento de
uma contradição entre a individuação (de cada elemento maquínico) e a sua combinação,
dissolvendo as diferenças funcionais iniciais. O conceito "multimedia" impôs-se nos processos
comunicacionais e, também, nos artefactos produzidos para esse efeito (3). Mas, até agora, o
sentido dominante (resultado do capitalismo como sistema dominante nas relações sociais) tem
conduzido este processo de extensão da capacidade humana (por meio de artefactos
tecnológicos) à substituição do ser humano (no processo produtivo), remetendo o indivíduo a uma
existência virtual (o ócio intermediado sempre pela máquina, sobretudo, pelo ecrã).
As etapas históricas da revolução cubana podem correlacionar-se com este processo de
desenvolvimento da tecnologia. E, tal como vimos ocorrer na primeira fase da revolução russa, a
ciência e a técnica foram assumidas como prioridades. No entanto, neste âmbito específico das
tecnologias da informação, o bloqueio norte-americano acabou por marcar a especificidade do
processo cubano ou, dito de outra forma, a reacção cubana ao bloqueio e à agressão imperialista
conduziu Cuba a uma forma específica de abordagem dos problemas tecnológicos.
Logo após o início do governo revolucionário, a relação de Cuba com a ex-URSS desenhou-se
numa lógica de solidariedade (da União Soviética em relação a Cuba, face ao bloqueio) e de articulação a nível geopolítico, sendo eventos marcantes dessa época a vitória militar
revolucionária em Playa Girón (também conhecida como 'Baía dos Porcos') sobre a tentativa de
invasão articulada pelos EUA. O apoio soviético a Cuba teve especial relevância a nível
económico e no âmbito das infraestruturas.
O desaparecimento da URSS e do bloco socialista a leste da Europa colocou acrescidas
dificuldades ao governo cubano. A fase seguinte é designada em Cuba por "período especial".
Nessa etapa, a carência em recursos económicos, energia e matérias primas obrigou ao
congelamento de planos de desenvolvimento na área tecnológica.
Em 1991, Fidel Castro dizia, perante o IV Congresso do PCC (Partido Comunista de Cuba):
Ya desde fines de 1990 tuvimos que limitar ventas de televisores, radios,
refrigeradores, porque si teníamos que racionar la electricidad, no tenía sentido seguir
distribuyendo equipos electrodomésticos, los que se tenían se guardaban para
campamentos de movilizados, para cosas que tuvieran una incidencia muy grande en
la producción…

A entrada da ECURED correspondente ao "Período Especial" assinala o seguinte:

El término “periodo especial” surge a partir de la década de los setenta en del siglo XX
cuando se comienza a desarrollar en Cuba, la doctrina de la guerra de todo el pueblo a
partir de la visión estratégica de la Revolución, las experiencias del acontecer nacional
y las características del país. (...)
Ya a finales de los años ochenta e inicio de los noventa del siglo XX, la nación cubana
debió enfrentar una aguda depresión que conduciría a una crisis muy peculiar, de
implicaciones fundamentalmente económicas y sociales lo que conllevó a tener que
promover determinadas políticas de ajustes que permitiesen, primeramente
enfrentarla, sobrevivir y posteriormente obtener resultados que indicasen una posible
salida de la misma.
A esta política de sobrevivencia se le nombró “período especial en tiempos de paz”, el
cual no es más que un concepto político-económico que expresa la disposición para
combatir la crisis económica con el esfuerzo y energía propios del país, para afrontar
las difíciles circunstancias y hallar alternativas eficaces de solución, sin traicionar el
socialismo por el que tanto se había luchado. (...)
Resaltan fundamentalmente: la no conclusión de los programas inversionistas, el
desvío o subutilización de recursos del Estado destinados a obras económicas y
sociales, la imposibilidad de concluir el periodo de rectificación de errores y tendencias
negativas, los pobres resultados en determinados indicadores económicos vinculados
a la agricultura, industria, producción nacional, el comercio interior y de exportación,
entre otros.
Tal situación incidiría en que se manifestara una crisis, que ha sido calificada por
diversos autores cubanos y extranjeros como crisis económica de los noventa. Al
respecto, los economistas cubanos convergen en definir como una de las causas
directas de la crisis, al derrumbe del socialismo euro Soviético (...). A todas las
problemáticas antes mencionadas, también hay que añadirle el recrudecimiento del
bloqueo de los Estados Unidos sobre Cuba con la aprobación de la Ley Torricelli
(1992) y años más tarde la Ley Helms-Burton (1996).

Na fase posterior, e até ao momento actual, verifica-se um incremento a nível tecnológico. A nível
estrutural, as condições geopolíticas alteraram-se, com Hugo Chavez na Venezuela e com uma
crescente colaboração de parte da China. Assim, Cuba superou a grave crise de final do milénio
e, no plano das comunicações, iniciou o desenvolvimento de uma estratégia subordinada a
critérios de sustentabilidade (com ampla utilização de energias renováveis), de autonomia (com a
produção de equipamentos informáticos para uso da população (portáteis e tablets) e de
soberania tecnológica (apostando no software livre).
A superação (ainda que não integral) das debilidades enfrentadas no período especial é
assinalada por Fidel Castro em 2011:

El período especial fue consecuencia inevitable de la desaparición de la URSS, que
perdió la batalla ideológica y nos condujo a una etapa de resistencia heroica de la cual
no hemos salido completamente todavía.
E, noutro momento, sublinhará:
Aunque lastima nuestra modestia, constituye un amargo deber consignar que nuestro
bloqueado, amenazado y calumniado país, ha demostrado que los pueblos
latinoamericanos pueden vivir sin violencia y sin drogas. Pueden incluso vivir, y así ha
ocurrido durante más de medio siglo, sin relaciones con Estados Unidos. Esto último,
no lo hemos demostrado nosotros; lo demostraron ellos.

Um exemplo para a Humanidade

A condição insular de Cuba, ampliada pelo isolamento que o imperialismo procurou impôr através
do bloqueio económico, levou a um aparente desfasamento daquele país face ao
desenvolvimento tecnológico global. Com níveis de consumo informático evidentemente menores
que de parte substancial dos países europeus, Cuba desenvolveu ferramentas próprias, a
começar, no âmbito da formação.
A possibilidade de uma análise comparada do desenvolvimento tecnológico cubano e sua
preparação para o usufruto das novas tecnologias da comunicação com países ocidentais (ou
seja, países que funcionam submetidos ao sistema capitalista) é limitada, dadas as características
demográficas e geográficas específicas de Cuba – e também históricas (por ter sido um país
colonizado aquando da expansão ultramarina europeia).
Ao abordar o problema da comunicação contemporânea sob o prisma da tecnologia é inevitável
depararmo-nos com o pensamento de Marshall McLuhan. O seu aforismo mais conhecido – o
meio é a mensagem – levado às suas últimas consequências, conduzirá à negação do conteúdo
como elemento significante no acto comunicativo.
Resultando da análise do processo comunicacional dominado pelo marketing nos EUA, ainda
numa fase anterior ao surgimento da internet, tem como base a assunção do paradigma
tecnológico (da electrónica) que marca a transformação dos meios de comunicação na segunda
metade do século XX, e que antecede o momento actual da plena afirmação da tecnologia digital.
A possibilidade de comunicação sem conteúdo é, todavia, ilusória. Mantido na ausência de
conteúdo (perceptível no plano semântico), o acto comunicante acaba por assumir um sentido
ideológico específico. Como tendência, todavia, o aforismo de McLuhan apresenta uma chance de
concretização numa sociedade que se veja marcada por uma contradição essencial: a de
apresentar um alto índice de desenvolvimento tecnológico e, simultaneamente, de estabelecer um
padrão comunicacional de baixo desempenho crítico. O projecto revolucionário cubano procurou
sempre o oposto.
A política tecnológica de Cuba pode compreender-se segundo o pensamento político de um dos
seus líderes mais carismáticos: Ernesto Che Guevara.
Num ensaio intitulado "El marxismo del Che" (4) surge a seguinte consideração:
Che retoma las tesis centrales del marxismo referidas al desarrollo integral del proceso
revolucionario: la transformación de la sociedad no solo es un hecho económico,
material, sino simultáneamente ideal, humano, de la conciencia, de lo subjetivo, y es
ante todo un proceso de desalienación.

As ideias de Che Guevara serão sublinhadas também por Fidel Castro, quando em 2010, dizia:
... soy optimista sobre bases racionales y sólidas. Me inquieta el futuro, pero también
creo cada vez más que la solución está al alcance de nuestras manos, si logramos
hacer llegar la verdad a un número suficiente de personas entre los miles de millones
que pueblan el planeta.
(5).
Considerando ser errado (do ponto de vista marxista) «querer construir el socialismo con
elementos del capitalismo sin cambiarle realmente la significación», Che Guevara afirmava:

«No importa solo la cantidad y calidad de bienes materiales elaborados, sino el modo en que se
producen y las relaciones sociales que se desprenden de dicha manera de producir y distribuir lo
producido»
(6).

Neste quadro muito específico, de uma consciência social avançada em relação às condições
materiais objectivas de usufruto das novas tecnologias da informação (enquanto o Ocidente
capitalista começa a despertar para as consequências do hiper-consumismo em que se viu
mergulhado, onde a facilidade de comunicação passou a representar cada vez mais ausência de
informação, por hipertrofia de meios), Cuba enfrenta desafios únicos. Mas, à perspectiva aberta
pelo cabo submarino de comunicação, contrapõem-se hoje mudanças no cenário geopolítico
(pela viragem à direita no Brasil) que colocam novas ameaças ao caminhar do povo cubano e da
sua revolução.


(1) RAND (1998), "Cuba and Lessons from Other Communist Transitions. A Workshop Report", Washington, D.C.,
consultado na internet.
(2) Salomón, O. P. (2016), Fidel Castro, Soldado de las Ideas. Tecnologias y medios de comunicación. Ebook. Cimatel,
Havana.
(3) Nesta parte do texto procurou-se integrar perspectivas relacionadas com a individuação no plano maquínico (na
sequéncia do que é proposto por Simondon), do processo de transformação dos artefactos tecnológicos (numa
leitura crítica do pensamento de McLuhan).
(4) Carlos Tablada (2008), El marxismo del Che, Panamá, Casa Ruth Ed.
(5) Fidel Castro, apud Salomón (2016).
(6) Che Guevara, apud Tablada (2008).



Mais notícias...

Iniciar sessão

Recuperar password

goto top