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O MEDÍOCRE DESEMPENHO DAS UNIVERSIDADES PORTUGUESAS

Alameda da Universidade, Lisboa

2018-12-27

Jorge Fonseca de Almeida*, Especial para O Lado Oculto

A recente atribuição do Prémio Pessoa a Miguel Bastos Araújo, um académico de renome, o segundo investigador português mais citado de sempre, torna a colocar a questão da qualidade no nosso ensino superior quando se sabe que, tendo concorrido para uma vaga em Portugal, foi rejeitado por motivos fúteis (não ter indicado o nome dos país na carta de motivação, prática desconhecida no mundo académico internacional mas evidentemente indispensável no país das “cunhas”, em que o nome de família é mais relevante do que o mérito).

Naturalmente rejeitado em Portugal foi acolhido na Dinamarca, no Reino Unido e em Espanha, onde tem vindo a desenvolver o seu labor intelectual.

Vamos analisar comparativamente os resultados de Portugal procurando situar o nível da nossa educação superior. Analisamos os três mais prestigiados rankings universitários da atualidade: o do Times, o QS e o da Universidade de Xangai.

Podemos pensar em três grandes níveis: os dos países que colocam as suas universidades entre as 100 melhores do mundo em todos os rankings – aqui teremos o ensino de excelência. Os países que surgem logo de seguida, ie. os países que têm um ensino de segunda qualidade; e os restantes países, cujo ensino evidentemente não atinge a qualidade mínima.

Vejamos então onde se incluiu Portugal.

Ranking do Times 2019

O Times publica anualmente um ranking das melhores universidades de todo o mundo, o The World University Ranking, cuja classificação de 2019 já está disponível para consulta.

Apesar de algo enviesado em relação às Universidades anglo-saxónicas, não deixa de ser um bom mapa da qualidade geral das universidades dos vários países. O ranking lista as 200 melhores universidades e depois agrupa as seguintes 200 em grupos de 50, considerando não ser possível, a esse nível, uma identificação de qualidade mais individualizada. A partir das 400 agrupa-as em grupos de 100 de igual valia.

Universidade de Cambridge

A melhor universidade portuguesa – a Universidade do Porto – surge no grupo das 401 a 500. Um resultado que reflecte o desinvestimento português no ensino superior e na investigação. Um resultado decepcionante, tendo em conta os níveis de outros países.

Nos primeiros lugares, os Estados Unidos dominam garantindo mais de 40% das 100 melhores. Pequenos países como a Holanda, a Suíça, a Suécia, a Bélgica e a Finlândia conseguem também colocar as suas universidades nas 100 melhores (ver quadro 1)

Quadro 1
Número de Universidades nos 100 primeiros lugares do Ranking
por país

Interessante constatar a emergência da Ásia, com a China a incluir seis universidades no top 100 mas também o Japão, duas, a Coreia do Sul, duas, e Singapura, outras duas. Assim as melhores universidades repartem-se pela América do Norte, a Europa e a Ásia.

Universidade de Pequim

Portugal fica atrás de países como a Turquia, Arábia Saudita, os Emirados, a Índia, a Malásia, o Irão, a Jordânia e a generalidade dos outros países europeus como a Itália, a Espanha, a Estónia, o Chipre, a Áustria, a Noruega. Na América Latina, o Brasil apresenta também universidades melhor classificadas do que Portugal.

As nossas universidades depois de perderem a competição com os países europeus, estão também a perdê-la com as instituições académicas asiáticas e com as do Médio Oriente. Um perfil que não nos pode orgulhar, apesar de concordarmos com a afirmação de que estamos a melhorar. Mas o facto permanece que muitos outros conseguem melhorar mais depressa (ver Quadro 2).

A verdade é que muitas destas instituições que agora surgem à frente das universidades portuguesas não existiam sequer há algumas décadas atrás. Mas com uma política de contratação de professores estrangeiros, de atracção de um leque de estudantes talentosos, de uma diversidade de nacionalidades, de um equilíbrio entre pesquisa e ensino, foi possível a muitos países melhorarem o seu sistema universitário de forma rápida, ultrapassando aqueles que não quiseram ou não puderam investir no conhecimento.

A generalidade das universidades portuguesas foi avaliada, mas os resultados foram reveladores (Quadro 3). A melhor, a Universidade do Porto, quedou-se no grupo das “401 a 500” as restantes em grupos ainda mais afastados dos primeiros lugares, revelando a distância que precisamos de percorrer nas áreas do saber, da ciência e da investigação.

Se pensarmos que as elites políticas e económicas portuguesas tendem a frequentar a Universidade Católica Portuguesa, e ao verificarmos a sua posição em termos internacionais (grupo 601 a 800,) podemos perceber a qualidade da formação dessas pessoas.

Valores das propinas da U. Católica em Dezembro 2018

Quadro 2
Países não representados no top 100
Universidade Melhor Classificada

 

Quadro 3
Classificação Universidades Portuguesas

 

Não admira, pois, que cada vez mais jovens apostem na formação em universidades estrangeiras, o que funciona também como uma forte selecção negativa – os melhores e mais dotados alunos partem os restantes ficam em Portugal.

QS University Ranking 2019

Esta classificação é produzida pela Quacquarelli Symonds e é uma das mais respeitadas

É uma classificação é mais abrangente, estando mais países representados nos 100 primeiros. Surgem aqui a Argentina, a Rússia, a Dinamarca, a Nova Zelândia e Taiwan, mas os restantes países são os que são indicados pelo ranking do Times. O peso dos EUA é menor, descendo dos 41% para os 31%, e a China tem maior peso com 10 universidades nas 100 primeiras, situando-se imediatamente atrás dos EUA e do Reino Unido.

Aqui a Universidade do Porto surge um pouco melhor, na 328ª posição, mas claramente atrás de universidades da América Latina (Argentina, Brasil, Chile, México), da Ásia e do Médio-Oriente (ver quadro 4).

Também neste ranking a Universidade Católica, berço das nossas elites, surge nos últimos lugares (751) (ver Quadro 5). A concentração de alunos provenientes das classes mais altas na Católica explica-se pela selectividade que pratica, baseada praticamente em exclusivo na capacidade de pagar propinas elevadas e na oferta de cursos inexistentes noutras universidades, como é o caso de Teologia.

Cursos mais técnicos, como as engenharias, foram recentemente encerrados por falta de alunos, pois os cursos não eram reconhecidos, dada a sua insuficiente qualidade, pela Ordem dos Engenheiros.

Universidade do Porto

 

Quadro 4
Países não representados no top 100
Universidade Melhor Classificada

Universidade Nacional da Colômbia

 

Quadro 5
Classificação Universidades Portuguesas

 

Academic Ranking of World Universities

A primeira e mais respeitada classificação de universidades. Elaborada pela Universidade Jiao Tong de Xangai.

Esta classificação confirma também a superioridade anglo-saxónic,a elegendo 46 universidades americanas, 8 britânicas, 6 australianas e 4 canadianas para o top 100.

É a que dá melhor nota a uma universidade portuguesa, ao colocar a de Lisboa no grupo 151-200. As outras, contudo, são relegadas para posições mais modestas (Quadro 6).

 

Quadro 6
Classificação das Universidades Portuguesas
Ranking de Jiao Tong 2018

 

Comparações

Apenas 13 países surgem simultaneamente no top 100 das três mais respeitadas classificações mundiais das universidades (Quadro 7). Estes países claramente possuem um ensino superior de excelência. Podemos identifica-los como uma primeira divisão selecta. Os Estados Unidos destacam-se e a sua predominância é indiscutível. O Reino Unido surge sistematicamente em segundo lugar. A China começa a aproximar-se dos melhores, ocupando uma terceira posição dividida com a Austrália, a Alemanha e a Holanda.

Universidade de Harvard

Um grupo de 4 países consegue incluir universidades no top 100 de pelo menos duas classificações: a Rússia, a Coreia do Sul, a Finlândia e a Dinamarca (Quadro 8). Podemos considerar que estes países também dispõem de um ensino superior de excelência.

Quadro 7
Países que surgem no top 100 das 3 classificações
Número de Universidades

 

Quadro 8
Países que surgem no top 100 de 2 classificações
Número de Universidades

 

Depois surgem 6 países que conseguem entrar para as 100 primeiras numa única classificação (Taiwan, Argentina, Israel, Noruega, Malásia, e Nova Zelândia) (Quadro 9).

Quadro 9
Países que conseguem chegar ao top 100 numa única classificação

 

Estes já não os podemos considerar ao mesmo nível dos anteriores. Vão incluir-se num segundo grupo de países que consistentemente obtém boas classificações. (Quadro 10)

Quadro 10
Países sempre melhor ou igual que Portugal em todas as classificações
Excluindo os que entram para o top 100 de qualquer das classificações

NP= Não Participa nesta avaliação.

 

Neste grupo, a par de países europeus, vemos surgir vários países árabes como o Líbano, a Arábia Saudita e os Emirados, confirmando o atraso português face a esta realidade emergente.

Ainda consideramos os países que ficam à frente de Portugal em duas das três classificações utilizadas (Quadro 11).

Quadro 11
Países melhor que Portugal em duas das três classificações

 

A Estónia, um pequeno país báltico, aparece a par com a Índia e a África do Sul neste grupo.

Ao conjunto destes países que consistentemente têm universidades melhores que Portugal mas não têm ainda um ensino de excelência considerámos uma segunda divisão. Estes 17 Estados constituem o grupo intermédio entre Portugal e os países mais avançados cientificamente (lista completa no Quadro 12).

Em resumo podemos identificar 17 países com um ensino de excelência, um segundo grupo de outros 17 estados que ainda não atingem a excelência, mas obtêm bons resultados, e finalmente os restantes onde Portugal se incluiu.

Quadro 12
Lista de países intermédios

 

Conclusões

Portugal, por falta de investimento e atraso acumulado ao longo de séculos, queda-se nas comparações internacionais sobre a qualidade do seu ensino superior como um país que oferece aos seus alunos um ensino de fraca qualidade.

As suas Universidades estão classificadas longe dos lugares cimeiros e muitas das mais prestigiadas no nosso país, como a Universidade Católica, encontram-se mesmo entre as piores do mundo.

Apesar do grande orgulho que ostentam e propagam, as universidades portuguesas não são reconhecidas como tendo a qualidade necessária para ombrear nos lugares intermédios das principais e mais respeitadas classificações universitárias mundiais.

Portugal, preso nas regras orçamentais impostas pela UE/Alemanha, manietado pela recusa das grandes fortunas de pagar impostos adequados, incapaz de taxar os fundos escondidos nos offshores, não consegue mobilizar os recursos necessários para o necessário investimento na educação e na ciência.

Mas mesmo com os artificialmente limitados recursos actuais seria possível, com uma menor bazófia e um menor orgulho em resultados medíocres, com uma maior humildade, fazer melhor.

Como? Através de uma melhoria consistente do ensino secundário, de uma aposta na meritocracia (com critérios de selcção de alunos e docentes mais transparentes), e do envio de um maior número alunos aprender no estrangeiro nos países de ensino de excelência, para que possam aprender e regressar ao país. Com estas e outras medidas simples Portugal poderia aspirar a um lugar mais condigno na comunidade académica internacional.

Poderíamos, quem sabe, aspirar a ultrapassar o Líbano ou a Republica Checa. Mas para isso é necessária uma ambição que não parece compaginável com as actuais políticas e nem com as aspirações da elites económicas e governamentais.

Num mundo em que a técnica e a ciência assumem cada vez mais um papel importante na cadeia produtiva, a falta de preparação académica das novas gerações é sinal que o país continuará a regredir no seu posicionamento na divisão internacional do trabalho.

*Economista, MBA

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