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BÓSNIA-HERZEGOVINA: ELEIÇÕES DISFUNCIONAIS NUM PROTECTORADO FALHADO

A charada do protectorado reflecte-se na charada das eleições gerais, que por seu lado nem são sérias nem deixam ninguém satisfeito, sobretudo o povo das três comunidades étnico-religiosas

2018-11-09

Aleksandar Pavic, Strategic Culture Foundation/O Lado Oculto

As coisas poderiam, de facto, estar a correr melhor para o Ocidente nos seus mini-protectorados em ruínas nos Balcãs. O referendo macedónio de 30 de Setembro foi um fracasso, com apenas 37% de participação, deixando os responsáveis da NATO, da União Europeia e dos Estados Unidos em dificuldades para se declarar satisfeitos e encontrar maneiras mais criativas de contrariar a vontade popular. E as eleições gerais de 7 de Outubro na Bósnia-Herzegovina pouco mais conseguiram do que evidenciar a inviabilidade da grande experiência multicultural in vivo, coisa que Angela Merkel já compreendera em 2010.

A Bósnia-Herzegovina é dominada por três comunidades étnico-religiosas – bósnios muçulmanos, sérvios cristãos ortodoxos e croatas católicos. Até ao reconhecimento da sua “independência” pelo Ocidente unipolar, na Primavera de 1992, e consequente guerra civil sangrenta, o território foi parte de um muito mais amplo, mais bem-sucedido e verdadeiramente independente projecto multiétnico: a Jugoslávia. Mas o Ocidente, embriagado com a vitória na Guerra Fria, decidiu que o multiculturalismo soberano era “mau” e deveria ser substituído pelo “bom”, uma diversidade supervisionada por ele próprio.

Ninguém está feliz

Ninguém parece realmente satisfeito com os resultados eleitorais na Bósnia-Herzegovina. No sector muçulmano, o vencedor da corrida para a Presidência Trilateral (onde estão representadas as três comunidades), Safik Dzaferovic, declarou-se descontente com “a ingerência da Croácia nos assuntos internos da Bósnia”. E por que se “ingere” a Croácia? Por estar descontente com o facto de o “verdadeiro” candidato croata à Presidência Trilateral, Dragan Covic, ter perdido contra Zeljko Komsic, eleito pelos muçulmanos - que superam em número os croatas numa proporção de quatro para um dentro da entidade croata-muçulmana (a Bósnia-Herzegovina é constituída administrativamente por duas “entidades semi-autónomas: a Federação da Bósnia-Herzegovina, de maioria muçulmana e croata; e a República Srpska, de maioria sérvia). Covic vencera as eleições em 2014, supostamente com 80% dos votos croatas.
Komsic, o vencedor, também não está satisfeito com as críticas disparadas da vizinha Croácia por declarar lealdade à Bósnia-Herzegovina e não a Zagreb.
E tanto Dzaferovic como Komsic estão descontentes com o seu próximo colega sérvio na Presidência, Milorad Dodic, por declarar que vai desenvolver esforços no sentido de que a Bósnia-Herzegovina reconheça a Crimeia como parte da Rússia e não da Ucrânia.
Por seu turno, Milorad Dodic, juntamente com o primeiro-ministro da Sérvia, Ivica Dacic, não estão nada satisfeitos com Komsic por este considerar que a vizinha província sérvia do Kosovo é “um Estado independente”; e estão descontentes especialmente com Dzaferovic, sobretudo com o seu papel de comandante do aparelho policial e militar da Bósnia-Herzegovina durante a guerra – dominado por muçulmanos – por não denunciar os graves crimes de guerra cometidos por terroristas islâmicos contra soldados sérvios. Além disso, não é a primeira vez que Dodic declara a sua insatisfação com a ingerência dos Estados Unidos nas eleições e as suas constantes pressões sobre a Comissão Central de Eleições da Bósnia-Herzegovina.

Irregularidades, pressões e ingerências

Os responsáveis ocidentais, por seu lado, também não estão exactamente aos saltos de contentamento. O vice-rei da Bósnia-Herzegovina, Valentin Inzko, designado pelas principais potências que controlam o protectorado, está descontente, entre outras coisas, com a elevada percentagem de 7% de votos irregulares nas eleições.
O Departamento de Estado norte-americano manifestou “preocupações com o modo como decorreu o processo eleitoral”, naturalmente infeliz pelo facto de a sua intervenção, tal como na Macedónia, não ter produzido os resultados que desejava.
A Organização para a Cooperação e a Segurança na Europa (OSCE), por seu lado, está insatisfeita com a “segmentação de base étnica” – maneira elegante de constatar a tendência dos eleitores para só votarem em pessoas da mesma nacionalidade – uma opinião que é partilhada com a União Europeia.
Por sua vez, a Comissão do Atlântico Norte, um organismo da NATO, lamenta a circunstância de “o Ocidente estar a ser superado por políticos astutos que fazem soar o tambor do nacionalismo ao poder” – Steve Bannon deve estar desfeito em sorrisos; a mesma organização, porém, manifesta a esperança de que o apoio aos partidos nacionalistas croatas e muçulmanos bósnios venha a diminuir.
Quanto ao sector sérvio, o problema tenderá a ser resolvido através de uma das tradicionais “revoluções coloridas” para retirar a vitória a Milorad Dodic e criar um regime do tipo da Ucrânia, que também está a ser tentado na Macedónia ex-jugoslava. No mundo da NATO, a vontade das populações manifestada em eleições livres apenas será válida se produzir “os resultados certos”.

A questão sérvia

Na República Srpska, a entidade sérvia da Bósnia-Herzegovina, a candidata apoiado pela NATO e a União Europeia, Zeljka Cvijanovic, foi derrotada por Milorad Dodic. Agora recusa-se a aceitar os resultados e a ocupar os assentos parlamentares, enquanto acusa o vencedor de ser “um ditador” e um “falsificador” de eleições.
As declarações enquadram-se já nas actividades conducentes a uma operação do tipo Euromaidan de Kiev, agora em Banja Luka, a capital efectiva da República Srpska. Tais movimentações coincidem com um plano conspirativo de autoria britânica denunciado na Sérvia em finais de Setembro. De acordo com este, as eleições seriam sabotadas previamente; no caso de a manobra não funcionar, a alternativa era não reconhecer os resultados. Então, devem ser organizadas manifestações de massas conduzidas pelo movimento “Justiça para David”, que pretende tirar partido da morte de David Dragicevic, de 21 anos, acusando o governo de Dodic de ser o responsável – embora ainda não tenha sido apresentada qualquer prova.
A organização destes protestos já foi tentada antes das eleições, embora sem êxito.
Os políticos ao serviço da NATO e da União Europeia tentam agora ligar novas manifestações aos seus protestos contra a “falsificação” das eleições e ao apoio à atitude do pai de Dragicevic, que ocupou a praça principal de Banja Luka, declarando-a “território livre” e recusando-se a abandoná-la até que os “assassinos”, isto é, “altos funcionários do governo”, sejam detidos.
Feito isso, a oposição acredita que estarão criadas condições para o governo de Dodic ser destituído.
Apuradas todas as circunstâncias que caracterizaram as recentes eleições na Bósnia-Herzegovina, verifica-se que os Estados Unidos e as grandes potências da NATO e da União Europeia reservam para as populações do seu bantustão disfuncional, supervisionado e paralisado uma de duas opções: ou o caminho que os protectores estabelecerem; ou a política de terra queimada que venha a ser instaurada através de uma “revolução colorida” ou manobra semelhante.
Sendo que a acusada de tudo será, inevitavelmente, a Rússia.



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