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O ÚLTIMO GOLPE NA VENEZUELA TEVE DEDO DE ISRAEL

Raul Baduel, cabecilha da última tentativa de golpe, esta operacionalizada por quadros israelitas

2019-07-06

Thierry Meyssan, Reseau Voltaire/O Lado Oculto

Uma enésima tentativa de golpe de Estado foi desmantelada em 24 de junho de 2019 na Venezuela. Todos os implicados foram detidos nos dias 22 e 23; o ministro da Informação, Jorge Rodríguez, explicou pormenorizadamente na televisão os desenvolvimentos e os objectivos dos acontecimentos. De acordo com os registos das comunicações dos conspiradores, o golpe terá sido supervisionado pelos israelitas.

Ao contrário do que aconteceu em tentativas anteriores, a conspiração foi acompanhada durante 14 meses por uma unidade de informação militar venezuelana que foi preparada pelos serviços cubanos de informações. Durante todo o período, os venezuelanos infiltraram-se no grupo e vigiaram todas as suas comunicações áudio e vídeo. Dispõem, por isso, de 56 horas de gravações que proporcionam grande quantidade de provas irrefutáveis.

Vários dos indivíduos detidos tinham estado já associados a conspirações anteriores, de modo que é difícil conceber esta operação dissociada de todas as outras dirigidas pela CIA.

Duas observações impõem-se desde já. Em primeiro lugar, este golpe foi dirigido ao mesmo tempo contra o presidente constitucional Nicolás Maduro e contra o autoproclamado “presidente interino” Juan Guaidó para conduzir um terceiro homem ao poder: o general Raúl Isaías Baduel.

Este militar, antigo chefe de Estado-maior e depois ministro da Defesa, foi demitido das suas funções pelo presidente Hugo Chávez, virou-se contra ele e assumiu a cabeça da oposição em 2009. Comprovou-se, contudo, que tinha desviado dinheiro do Ministério. Foi condenado a sete anos de prisão, pena que cumpriu. Foi novamente detido durante o mandato do presidente Nicolás Maduro e mantém-se na cadeia. Um comando deveria tê-lo libertado e conduzi-lo à televisão nacional para anunciar a mudança de regime.

Destruir as estruturas estatais

O facto de promover um terceiro presidente confirma a nossa análise publicada há dois anos e segundo a qual o objectivo dos Estados Unidos não é apenas o de mudar o regime bolivariano por um outro mais obediente, mas destruir as estruturas estatais do país. De um ponto de vista norte-americano, nem a maioria nacionalista nem a oposição que se diz pró-norte-americana deverão esperar ter futuro.

Os venezuelanos que seguem Guaidó e acreditam que o apoio dos Estados Unidos os levará à vitória devem hoje constatar o seu erro. O iraquiano Ahmed Chalabi e o líbio Mahmud Jibril regressaram aos seus países nas bagagens das forças de intervenção e não imaginavam sequer o que os esperava.

As análises clássicas do século XX, segundo as quais os Estados Unidos preferiam governos vassalos, foram ultrapassadas pelo estado actual do capitalismo financeiro transnacional. É este o sentido da doutrina militar Rumsfeld/Cebrowski* em vigor desde 2001 e que já devastou o “Médio Oriente alargado” e se abate agora sobre a “Baía das Caraíbas”.

Segundo as gravações da conspiração, esta não foi organizada pelos Estados Unidos - ainda que, provavelmente, a tenham supervisionado – mas pelos israelitas. Ao longo dos últimos 72 anos, a CIA organizou uma enorme quantidade de “mudanças de regime” através de “golpes de Estado” ou “revoluções coloridas”. Por questões de eficácia, a agência pode ter confiado simultaneamente missões idênticas a várias unidades, ou seja, delegando algumas operações por subcontratação. É frequentemente o caso do Mossad, que vende igualmente os seus serviços a numerosos outros clientes.

Há quatro anos registou-se uma outra tentativa de golpe de Estado na Venezuela. A operação previa então diversos assassínios e uma manifestação que deveria tomar de assalto o palácio presidencial de Miraflores. A estação de televisão TeleSur demonstrou que esta tentativa foi enquadrada por estrangeiros que tinham entrado no país sobretudo nos dias anteriores. Estrangeiros que não falavam espanhol. Entretanto, o percurso da manifestação foi misteriosamente assinalado por grafittis de estrelas de David e inscrições em hebraico.

Israel na América Latina

Prudentemente, o ministro Jorge Rodríguez evitou dizer publicamente se os israelitas que dirigiram a conspiração de 22 de Junho estavam ou não mandatados pelo Estado de Israel. Numerosos exemplos atestam que isso foi, de facto, possível.

O papel dos serviços secretos israelitas na América Latina remonta a 1982. Na Guatemala, o presidente “judaico-cristão” Efraín Ríos Montt massacrou 18 mil índios. Enquanto Ariel Sharon invadia o Líbano, o Mossad continuava na sombra as experiências sociais conduzidas desde 1975 na África do Sul do Apartheid: criar bantustões; um modelo que viria a ser aplicado aos palestinianos depois dos Acordos de Oslo (1994). Contrariamente a uma leitura optimista dos acontecimentos, o facto de o primeiro-ministro Isaac Rabin ter pessoalmente supervisionado experiências sociais na África do Sul não joga a favor da sua boa-fé quando se comprometeu em Oslo a reconhecer um Estado Palestiniano desmilitarizado.

Nos últimos dez anos, os serviços secretos israelitas:

 - “Autorizaram” a empresa “privada” israelita Global CST a realizar a operação “Jaque” para libertar Ingrid Betancourt, refém das FARC colombianas (2008);

- Enviaram snipers para as Honduras com o objectivo de assassinar os dirigentes das manifestações pró-democracia durante o golpe de Estado contra o presidente constitucional Manuel Zelaya (2009);

- Participaram activamente no derrube da presidente brasileira Dilma Rousseff no seio do Banco Central, da segurança dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e no Senado (2016).

Por outro lado, as forças de defesa israelitas:

- Arrendaram uma base de submarinos no Chile;

- Enviam anualmente milhares de soldados para fazer estágios de duas semanas na propriedade de Joe Lewis na Patagónia argentina**.

*Tese norte-americana pós-2001 que divide o mundo entre os “Estados estáveis” – países aliados dos Estados Unidos e/ou com governos submissos; e o resto do planeta, como fornecedor de matérias-primas. Quanto mais incipientes e desorganizadas foram as estruturas estatais do “resto do planeta” mais fácil é o acesso às matérias-primas pelos interesses norte-americanos. A estratégia assenta ainda em condições que tornem os “Estados estáveis” e aliados dependentes das forças armadas norte-americanos para terem acesso às reservas de matérias-primas.

**Oito a 10 mil soldados israelitas passam anualmente duas semanas em chamados “campos de férias” criados pelas forças armadas do Estado sionista em territórios comprados pelo multibilionário britânico Joe Lewis na Terra do Fogo – extremo sul da Patagónia argentina, e também no Chile. As áreas envolvidas em torno do Lago Escondido – ao qual é vedado ilegalmente o acesso – são várias vezes superiores à do Estado de Israel.


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