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DE COMO A CIA FABRICA A GUERRA CONTRA O IRÃO

Michael d'Andrea, aliás o Príncipe Negro, aliás o Ayatollah Mike, colaborador de Pompeo, mentor de tortura e assassínios, o operacional obcecado com a guerra e a mudança de regime no Irão

2019-06-24

Vijay Prashad, Globetrotter/Independent Media Institute/O Lado Oculto

O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, foi peremptório – apenas algumas horas depois dos acontecimentos – ao dizer que as explosões nos petroleiros norueguês e japonês eram da responsabilidade do Irão. O Irão provocou as explosões, disse, e o Irão terá de pagar por isso. O governo dos Estados Unidos não apresentou qualquer prova dessa afirmação, além de um vídeo de má qualidade que pouco ou nada revelou.

É importante saber que o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, estava em Teerão nessa altura. Abe, que tem tentado manter o acordo nuclear com o Irão, não fez qualquer comentário beligerante nem saiu do país. O proprietário da companhia de navegação japonesa disse que não há provas de que os acontecimentos tenham sido provocados pelo Irão. Na verdade, contestou a alegação de que uma mina limpet tinha sido acoplada ao seu navio. Acrescentou que “objetos voadores” haviam atingido o navio.

A companhia de navegação norueguesa também não fez qualquer tipo de declaração sobre os eventos, pelo que não culpou o Irão pelo incidente. O governo norueguês também permaneceu em silêncio – nenhuma ameaça de Oslo. A companhia de navegação disse que uma investigação seria conduzida em devido tempo.

As tripulações de ambos os navios foram resgatadas por barcos norte-americanos e iranianos e levadas para locais seguros.

O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Irão, major-general Mohammad Hossein Baqeri, disse que se os seus militares tentarem fechar o Estreito de Ormuz não será com artifícios. Se fecharem o estreito, disse, será numa operação militar aberta. E negou totalmente que o Irão tenha atingido esses dois petroleiros.

Nenhum navio dos EUA foi atingido. Os incidentes ocorreram em águas internacionais – no Estreito de Ormuz, ao largo das costas do Irão e de Omã. Não em território norte-americano, em qualquer base militar norte-americana ou em propriedade do governo dos Estados Unidos. No entanto, foi o governo dos Estados Unidos quem fez as acusações e distribuiu as ameaças. Tal comportamento tornou-se um hábito muito feio.

Também se tornou impossível para a região, onde permanece uma sensação de mau presságio. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, será suficientemente louco para lançar mísseis? Será que os Estados Unidos da América querem abrir ainda mais as portas do inferno na Ásia Ocidental, portas que os Estados Unidos abriram amplamente com sua guerra ilegal contra o Iraque?

Centro de Operações para o Irão

Em 2017, a Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA) criou uma unidade especial, o Centro de Operações para o Irão, para concentrar a atenção nos planos dos Estados Unidos contra este país. A iniciativa partiu do diretor da CIA, John Brennan, que deixou o posto quando o governo Trump assumiu funções. Brennan acreditava que a CIA precisava de concentrar a atenção nas áreas que os Estados Unidos consideram problemáticas – Coreia do Norte e Irão por exemplo. Estas medidas, portanto, são anteriores à administração Trump.

O sucessor de Brennan – Mike Pompeo, que foi director da CIA por pouco mais de um ano (até ser nomeado secretário de Estado) – continuou essa política. As actividades da CIA relacionadas com o Irão foram concentradas na Divisão de Operações do Irão (Persia House). Trata-se de uma secção onde especialistas acompanham os desenvolvimentos políticos e económicos dentro do Irão e na diáspora iraniana.

Um facto que incomoda os falcões em Washington, como me disse um funcionário, é que a Persia House, estando repleta de especialistas, não tenha conseguido ainda obter sinais de mudança de regime no Irão.

Alguns deles, devido à sua longa concentração no Irão, acabaram por desenvolver sensibilidades em relação ao país. A equipa de Trump queria um grupo muito mais focado e beligerante que fornecesse o tipo de inteligência capaz de agradar às fantasias do seu conselheiro de segurança nacional, John Bolton.

Para chefiar o Centro de Operações para o Irão, a CIA nomeou Michael D’Andrea. D’Andrea foi um elemento central nos programas de interrogatórios que se seguiram aos ataques de 11 de setembro de 2001 e dirigiu o Centro de Contraterrorismo da CIA. Assassínios e tortura foram actividades fundamentais no modo como abordou o trabalho.

Foi D’Andrea quem expandiu o programa de atentados com drones da CIA, em particular os “atentados com assinatura”. Este é um instrumento particularmente controverso. A CIA recebeu permissão para matar qualquer pessoa que se encaixasse num determinado perfil – um homem de certa idade, por exemplo, com um telefone que havia sido usado para ligar a alguém constando de uma lista. As práticas mais tenebrosas da CIA são precisamente as de D’Andrea.

O que é pertinente no seu posto na Central de Operações para o Irão é que D’Andrea está perto dos governos árabes do Golfo, disse-me um ex-analista da CIA. Os países árabes do Golfo têm pressionado fortemente para conseguir uma acção contra o Irão, uma visão compartilhada por D’Andrea e partes de sua equipa. Pela sua atitude intransigente em relação ao Irão, D’Andrea é conhecido, ironicamente, por “Ayatollah Mike”.

D’Andrea e pessoas como Bolton fazem parte de um ecossistema de homens que têm um ódio visceral pelo Irão e que estão próximos da visão do mundo da família real saudita. São homens imprudentes com o recurso à violência, dispostos a fazer qualquer coisa se isso significar provocar uma guerra contra o Irão. É um perigo quando as coisas passam por eles.

D’Andrea e os falcões derrotaram vários especialistas do Irão no Centro de Operações; pessoas como Margaret Stromecki, que fora chefe de análise. Outras que pretendem oferecer uma alternativa à visão das coisas de Pompeo-Bolton também mudaram de posto ou permanecem em silêncio. Não há espaço no governo Trump, segundo um ex-funcionário, para discordar da política em relação ao Irão.

Guerra da Arábia Saudita

O irmão gémeo de D’Andrea fora da Casa Branca é Thomas Kaplan, um bilionário que criou dois grupos obcecados pela mudança de regime no Irão. Os dois grupos são o United Against Nuclear Iran (UANI) e o Counter-Extremism Project. Não há nada de subtil aqui. Estes grupos – e o próprio Kaplan – promovem uma agenda extremista contra os muçulmanos em geral e o Irão em particular.

Kaplan culpou o Irão pela criação do ISIS, pois foi o Irão, disse Kaplan, que “usou um terrível movimento sunita” para expandir a influência da “Pérsia para o Mediterrâneo”. Tal absurdo foi seguido por uma leitura errada dos conceitos xiitas como taqiya, que significa prudência e não – como Kaplan e outros argumentam – engano. Kaplan, estranhamente, está mais próximo do ISIS, ou Estado Islâmico, do que o Irão, uma vez que tanto Kaplan como o ISIS são movidos pelo ódio contra aqueles que seguem as tradições xiitas do Islão.

Não surpreende que os grupos anti-iranianos de Kaplan unam a CIA com o dinheiro. O chefe da UANI é Mark Wallace; é também o CEO do Tigris Financial Group da Kaplan, uma empresa financeira com investimentos que beneficiam, como admite, da “instabilidade no Médio Oriente”. Quem trabalha com a UANI e o Counter-Extremism Project é Norman Roule, um ex-director de inteligência para o Irão no gabinete da Direcção Nacional de Inteligência dos Estados Unidos.

Roule ofereceu seu apoio aos esforços da Fundação Arábia, dirigida por Ali Shihabi, um homem com ligações estreitas à monarquia saudita. A Fundação da Arábia é uma entidade de lobby criada para fazer um trabalho de relações públicas mais eficaz para os sauditas do que os diplomatas sauditas podem realizar. Shihabi é filho de um dos diplomatas mais influentes da Arábia Saudita, Samir al-Shihabi, que desempenhou um papel importante como embaixador no Paquistão durante a guerra que criou a al-Qaida.

Estes homens – Kaplan e Bolton, D’Andrea e Shihabi – estão ansiosos pela utilização das Forças Armadas dos EUA para concretizar os objetivos perigosos da realeza árabe do Golfo (Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos). Quando Pompeo foi peremptório diante das câmaras, estava a levar a água ao moinho de todos eles. O que pretendem é a guerra contra o Irão.

Provas, razão. Nada disso é importante para eles. Não irão descansar até que os bombardeiros norte-americanos depositem sua carga mortal em Teerão, Qom, Isfaha e Shiraz. Tudo farão para tornar possível essa terrível realidade.



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