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TRUMP RELANÇA GUERRA CONTRA A SÍRIA (E A RÚSSIA)

Tropas norte-americanas em movimento dentro da Síria, numa violação clara do direito internacional

2018-09-27

José Goulão; com Edward Barnes, Damasco

Derrubar o governo de Damasco e transformar a Síria num novo Iraque ou numa nova Líbia continua a ser o objectivo último da coligação internacional responsável pela agressão contra o país. O discurso de Donald Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas eliminou todas as versões “suaves” supostamente pretendidas através da guerra contra a Síria e definiu como alvo único o regime “do carniceiro de Damasco”. Por isso, todas as movimentações militares em curso na região devem ser olhadas sob essa luz, por exemplo a gradual transformação da vizinha Jordânia numa vasta base de assalto.
Os Estados Unidos e a França estão a preparar-se para estabelecer uma base conjunta de operações na Jordânia para acolher forças especiais dos dois países, com o objectivo de “combater o terrorismo”. Esta expressão tem o mesmo conteúdo enganador de “guerra contra o terrorismo”, uma vez demonstrado que as forças especiais mantidas por Washington e Paris ilegalmente em território sírio se têm ocupado em perturbar sistematicamente o combate das forças regulares sírias contra os grupos de mercenários ditos islâmicos. Todos eles, “moderados” ou “radicais”, actuando no quadro operacional da al-Qaida, Estado Islâmico e respectivos heterónimos.
A nova base será montada numa região fronteiriça com a Síria e receberá meios aptos a agir rapidamente contra alvos que venham a ser definidos como prioritários.

Presença activa no terreno

O projecto de Trump e Macron já tem a concordância do rei Abdalah II da Jordânia, que informará os seus súbditos de que se trata de um centro de treino de contingentes jordanos dedicados a “combater o terrorismo”.
Este reforço operacional insere-se aparentemente na chamada “Operação Gallant Phoenix”, centrada na Jordânia e agregando 21 países, chefiados pelos Estados Unidos, destinada a recolher informações sobre indivíduos e grupos terroristas com o intuito anunciado, ao nível oficial, de impedir o retorno do Daesh e prevenir atentados na Europa.
Forças especiais de alguns destes países, designadamente Estados Unidos e França, estão presentes no terreno, designadamente os norte-americanos do 5º Grupo de Forças Especiais e do 75th Rangers, articulados pelo Comando Conjunto de Operações Especiais. Não é possível apurar, tratando-se de operações encobertas, saber até que ponto as actividades destes militares se cingem aos intuitos antiterroristas oficiais ou têm uma amplitude mais vasta no enquadramento operacional das organizações infiltradas na Síria para combater Damasco. Sabe-se que alguns dos países coligados nessa operação, designadamente Estados Unidos, Reino Unido, França e Israel, têm protegido a actividade de grupos terroristas actuando na Síria, conhecendo-se numerosos factos que o comprovam. Por exemplo, quando as tropas sírias libertaram a cidade de Alepo da ocupação dos terroristas islâmicos detiveram militares da NATO num esconderijo de onde orientavam os destacamentos da al-Qaida e grupos que lhes estavam subordinados.
A criação da nova base de operações na fronteira da Jordânia com a Síria coincide com o reforço do cerco das tropas regulares sírias, com apoio aéreo russo, à região de Idleb, o último grande bastião do país ainda em mãos terroristas. A conservação dessa posição é considerada fundamental para os grupos terroristas e seus apoiantes, na perspectiva de um lançamento de nova ofensiva contra Damasco – que o discurso de Trump em Nova York deixa antever.
O reforço do Koweit como antena de espionagem dedicada à Síria é outro dos passos indiscutivelmente associado à mobilização de recursos para uma nova fase de guerra.
A Jordânia foi gradualmente transformada numa ampla base militar de apoio à agressão à Síria, dotada com instalações militares estrangeiras distribuídas por todo o território.
Na base aérea norte-americana de Azraq são manobradas as esquadrilhas de drones multifunções que o Pentágono mantém em actividade na Síria. É frequente, desde a Administração Obama, a utilização de drones para concretização de execuções sumárias de alvos selecionados.
Já no início deste ano, o Pentágono aumentou as suas disponibilidades na Jordânia patrocinando a construção de um novo “centro de treino” em Sawqa. A expansão da base aérea de Zarqa foi outro dos trabalhos de implantação militar terminado recentemente.
Desde o início da agressão à Síria, em 2011, a Jordânia é, a par da Turquia, um dos países fulcrais dessa operação, designadamente para recrutamento, acolhimento e treino dos mercenários a infiltrar em território sírio através da fronteira comum.
A insistência de Donald Trump e da chamada “coligação internacional” em reactivar a guerra contra a Síria – agora através de movimentações que colocam a tónica numa intervenção mais directa – coloca um risco de fundo para todo o planeta: a deflagração de um conflito de enormes proporções e consequências incalculáveis.
A Rússia já demonstrou que não tenciona abandonar os seus aliados de Damasco e tem procedido a movimentações militares paralelas às que se registam do lado contrário. “Derrubar o governo de Damasco”, como pretende Donald Trump à frente de uma coligação que tenta recuperar de uma derrota já sofrida, significa passar militarmente por cima da Rússia. É isso que está em causa.


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