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O IRÃO E OS IDIOTAS ÚTEIS

Bolsonaro com Netanyahu durante a sua visita a Israel

2019-05-17

Marcelo Zero*, Brasília; edição O Lado Oculto

Mais uma vez, o governo Bolsonaro demonstra que está disposto a disparar contra os interesses do Brasil para satisfazer os delírios psicopatas de assessores de Trump e os interesses do governo de Netanyahu. 

A notícia de que o Brasil e Israel promoveram uma reunião sigilosa no Itamaraty para que o país se some aos esforços para desestabilizar o Irão, inteiramente credível face às fantasias ideológicas do presidente e do seu folclórico chanceler, indica que está em andamento outro gigantesco tiro no pé do Brasil.

Não bastassem as agressões à China, à Rússia, aos países árabes, a membros do Mercosul, etc., chegou agora a vez do Irão.

Esta gente vive, definitivamente, fora da realidade, num mundo irracional e pré-iluminista. 

O quinto mercado do Brasil

O Irão é o quinto maior mercado para os produtos agrícolas do Brasil, mesmo com o embargo comercial imposto pelos EUA.  O país é o principal fornecedor ao Irão de complexo de soja, milho, açúcar, carne bovina, papel e celulose. Merece ainda destaque a exportação de produtos de confeitaria, resíduos das indústrias alimentares, alimentos para animais e, por fim, veículos aéreos, automóveis, tractores e motociclos.

Nos últimos 10 anos (2009-2018), o Brasil exportou para o Irão, ainda que com crise e embargo, 19611 milhões de dólares, com um superávite de uns incríveis 19234 milhões de dólares. Para Israel, o Brasil exportou, no mesmo período, 3941 milhões, com um défice de 5485 milhões de dólares. Ou seja, o Brasil exporta para o Irão cerca de cinco vezes mais que para Israel, com enorme superávite a seu favor, ao contrário do que acontece com este último país. 

O mais importante, contudo, é que o potencial das relações bilaterais entre o Brasil e o Irão é muito maior do que deixam entrever estes números.  O Irão tem apenas 11% do seu território de terras cultiváveis. Assim, as  exportações brasileiras para lá poderiam aumentar muito, caso não houvesse o embargo imposto pelos EUA. 

Quando o presidente Ahmadinejad esteve no Brasil, em 2010, foram feitos planos para quintuplicar o volume de comércio em cinco anos. Também foram realizadas parcerias na área de energia, cooperação tecnológica, agricultura, educação, etc. Devido à complementariedade das duas economias, o potencial é, de facto, imenso. 

Tal ampliação dependia e depende, contudo, do fim do embargo e do relacionamento político entre as duas nações. 

Ao lado dos psicopatas

Mas o governo Bolsonaro está a deitar fora tudo isto apenas para satisfazer os interesses geopolíticos de Trump e Netanyahu. 

E o pior é que governo Bolsonaro está a comprar uma guerra importada que já está perdida. 

Quem impulsiona a nova ofensiva contra o Irão é gente como Bolton, Pompeo e Abrams, psicopatas com pouco contacto com realidade. Os militares do Pentágono sabem que uma guerra “quente” contra o Irão seria um atoleiro trágico. Possivelmente foram eles, aliás, que fizeram chegar ao New York Times a informação de que os Estados Unidos estão a reunir 120 mil homens para uma possível invasão do Irão. 

Trata-se de um cenário de guerra encomendado pelo transtornado Bolton. Um cenário ridículo também. São demasiados homens para uma invasão por ar e mar e pateticamente insuficientes para uma invasão por terra. O Irão reúne, entre forças armadas e a Guarda Revolucionária, 530 mil homens no activo, fora os reservistas, que somam 350 mil. Ao todo são, portanto, cerca de 880 mil homens fortemente armados que poderiam ser mobilizados no curto prazo, mais de sete vezes que as forças do transtornado. Além disso, o Irão dispõe de 40 milhões de homens aptos a combater. 

Na realidade, o Irão tem o exército convencional mais poderoso do Médio Oriente. O Irão é a quarta força mundial em termos de lançadores móveis de foguetes e a oitava no que diz respeito à artilharia convencional. Possui também 1634 tanques de combate e 165 caças. 

A China e a Rússia

Mas a força maior do Irão vem de seus aliados, como China e Rússia. 

O Iráo é um país chave para o domínio da Eurásia, o supercontinente cujo controlo, como já previa Zbigniew Brzezinski em o Grande Tabuleiro de Xadrez, proporcionará hegemonia na ordem mundial.

China e Rússia sabem disso. 

A China depende do petróleo e do gás do Irão e vem fazendo pesados investimentos naquele país. Os chineses, em contratos de centenas de milhões de dólares, conseguiram acesso exclusivo a partes significativas dos campos de gás e petróleo do Irão. Em contrapartida, prometeram investir na infraestrutura energética do país e, mais do que isso, comprometeram-se a defender essas áreas petrolíferas contra agressões estrangeiras, “como se fossem território chinês”. O acesso a essas jazidas iranianas, complementado por uma rede de gasodutos, permitirá à China amenizar a sua dependência energética e é fundamental para a sua estratégia de constituir uma nova rota da seda. O Irão, por sua vez, poderá bloquear o Estreito de Ormuz, por onde passam os grandes petroleiros que vêm do Golfo Árabe-Pérsico, sem que isso tenha impacto nas suas exportações. 

Já a Rússia vê o Irão como um parceiro geopolítico muito importante no Médio Oriente. O Irão é aliado do governo da Síria, apoiado pela Rússia, e adversário da Arábia Saudita e Israel, principais aliados dos EUA na região. Com a recente e injustificada ofensiva da administração Trump contra o Irão, contrariando abertamente o texto do acordo Joint Comprehensive Plan of Action, ou JCPOA, que colocou o programa nuclear iraniano sob controlo dos EUA e Europa, em troca do levantamento das sanções, a Rússia aproximou-se muito do Irão. Na última reunião entre Putin e Khamenei, realizada em Novembro do ano passado, o mandatário russo afirmou ao líder iraniano que a “Rússia não trairá o Irão”.  

Assim, China e Rússia estão dispostos a defender o Irão por todos os meios, inclusive os militares. E a Europa, mesmo amedrontada com as pressões de Washington, não quererá embarcar nesta nova loucura de Trump.

Resta, portanto, aos Estados Unidos buscar apoio nas suas colónias.  

Quando o Brasil defendia seus interesses próprios no cenário mundial, tinha boas relações com o Irão e com todos os países do Grande Médio Oriente, independentemente das orientações políticas de seus governos. Tanto é assim que conseguiu, com Lula, um acordo que solucionava a questão do programa nuclear do Irão, infelizmente bombardeado a posteriori por Obama, que havia dado o sinal verde para as negociações. 

Agora, no entanto, o Brasil limita-se a ser massa de manobra de psicopatas que fazem a geopolítica da insanidade.

Coisa de idiotas úteis e de imbecis.

*Sociólogo, especialista em Relações Internacionais e assessor da liderança do PT no Senado brasileiro


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