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UCRÂNIA: A FICÇÃO CONTRA O DRAMA DA REALIDADE

Porochenko e Zelensky, vencido e vencedor

2019-04-22

José Goulão; com Castro Gomez, Kiev

Na Ucrânia, o presidente em exercício perdeu e quem ganhou foi alguém que fazia de presidente em ficção televisionada. Os ucranianos preferiram a ficção à realidade – o que mostra como estão saturados de viver no país mais pobre da Europa, em guerra civil, sob tutela de um aparelho de segurança nazi, servindo de ponta de lança a interesses estrangeiros desejosos de provocar a Rússia. Pode afirmar-se, sem receio de errar, que não foi Vladimir Zelensky quem ganhou as eleições presidenciais, mas sim Petro Porochenko quem as perdeu.

A diferença da votação entre os candidatos foi escandalosa para Porochenko, tratando-se de uma corrida a dois, situação em que raramente um dos concorrentes chega à maioria de três quartos. Mais humilhante ainda para o presidente em exercício é o facto de ter sido derrotado por alguém que é debutante na política, oriundo dos meios artísticos – com imagem, é certo, mas sem verdadeiro conteúdo programático. Não pode haver dúvidas de que os ucranianos quiseram ver-se livres de Porochenko e também, de certa forma, de qualquer outra figura que cheirasse demasiado à tão falada e “democrática” “revolução de Maidan”. Por isso, Yulia Timochenko já ficara pelo caminho na primeira volta.
Maidan prometera uma nova vida e não a transformação na nação mais à deriva na Europa. Garantira tempos de vacas gordas e não um naufrágio social e económico em que as vantagens comerciais trazidas pela associação à União Europeia são uma migalha impotente para compensar a consequente derrocada das tradicionais e enraizadas relações económicas com a Rússia. Os eleitores, em suma, disseram que não querem mais do mesmo. Mas serão escutados?

Washington perdeu sem perder

Com Porochenko perderam também os Estados Unidos, que há vários anos apostavam a maior parte das fichas no magnata do chocolate – o homem que incumbiram de concretizar os objectivos por excelência de Maidan: integração na União Europeia e na NATO. Por essa razão, a UE saiu igualmente derrotada nestas eleições presidenciais.
Já em 2006 o site WikiLeaks demonstrava, com todas as letras, que Porochenko e o seu movimento “Our Ukraine” (OU) eram instrumentos dos Estados Unidos. O establishment de Washington sabia perfeitamente que se tratava de um político e empresário corrupto, venal por natureza e pelo qual haveria “um preço a pagar”.
Os Estados Unidos pagaram, e não apenas para ver, pelo que terão perdido agora grande parte do investimento.
Uma situação perfeitamente controlável, no entanto, uma vez que os Estados Unidos e outros países ocidentais dominam as estruturas militares e de segurança do regime, servindo-se igualmente de entidades nazis como o Batalhão Azov e afins, operacionalmente integrados na Guarda Nacional.

Zelensky: a incógnita e o patrono

Vladimir Zelensky, o vencedor das eleições, uma figura sem carreira política, capitalizou o descontentamento da esmagadora maioria dos ucranianos com a situação do país e contornou, com alguma facilidade, o debate primário que Porochenko resumira a: ou ele ou Putin.
Sem deixar de hostilizar a Rússia, Zelensky posicionou-se de maneira hábil perante a guerra civil no país, prometendo esforçar-se por fazer prevalecer uma solução pacífica para o conflito que opõe Kiev ao Donbass.
É muito cedo para se ter uma ideia de como vai actuar Zelensky no quadro dos constrangimentos que irá encontrar: um poder real de obediência externa controlando as actividades governativas, uma crise económica e social profunda, uma guerra civil contra a qual advoga – inteligentemente – a aplicação dos acordos já estabelecidos em Minsk, se bem que, até agora, o poder de Kiev tenha feito tudo para os sabotar.
Mas há um dado objectivo que permite prever tendências: Zelensky é uma criação do oligarca Igor Kholomoisky, que usa três nacionalidades – ucraniana, israelita e cipriota – para gerir o seu império de negócios transnacionais, desde as actividades financeiras, aos media e petróleo – nos quais não hesita em recorrer a milícias privadas.
Como proprietário do grupo de televisão “1+1”, através do qual o comediante Zelensky se tornou célebre, Kholomoisky contribuiu para catapulá-lo na política, instalando-o logo na presidência.
Kholomoisky, como praticamente “dono” da área de Dnipropetrovsk, no Donbass, não tem sido propriamente um pacificador do conflito ucraniano, o que levanta interrogações quanto à capacidade de manobra do novo presidente perante essa situação.
Independentemente das actuais divergências com Kiev, desde o episódio da nacionalização do ramo ucraniano do seu PrivatBank, há aspectos estratégicos em que Kholomoisky se idêntica inteiramente com o regime: a sua estrutura fascizante, a hostilidade para com a Rússia, a identificação com os Estados Unidos, as integrações na União Europeia e na NATO.
Ao contrário de Porochenko, Zelensky pode não mostrar constrangimento em utilizar o russo, uma das línguas do país, falada por cerca de 40% da população. Mas a sua comprovada dependência em relação a um oligarca identificado com a situação – e que anteriormente apoiara Yulia Timochenko nas suas também simpatias fascistas – sobrepõe-se a quaisquer indicadores que possam deixar entrever uma mudança. Até prova em contrário, a Ucrânia tem uma nova face e postura presidencial, mas o regime continua o mesmo. O drama da realidade irá impor-se à ficção

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