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O TRISTE CIRCO BRASILEIRO

Sem palavras

2019-01-10

O texto que se segue é da autoria do último ministro da Justiça do Brasil antes do golpe que abriu caminho para a ascensão do fascismo ao poder. Um texto jocoso e amargo sobre o novo governo brasileiro, as suas subserviências e que, no processo de edição, optámos por deixar com a sua base estrutural original e algumas imagens usadas predominantemente no Brasil.

 Eugénio Aragão*, Brasil; edição de O Lado Oculto

O governo do capitão na reserva Jair Bolsonaro parece ser, aos nossos olhos de pobres mortais, de uma improvisação catastrófica. Digo que “parece ser”, porque é compreensível, dentro das minhas limitações, que um sujeito que conseguiu chegar lá por meio de um sofisticadíssimo estratagema de impulsionamento global de mensagens mentirosas, com a capacidade de iludir massas, tenha construído um governo tão barbaramente desqualificado sem que haja propósito nisso!
Posso estar a ver chifres em cabeça de cavalo. Sempre é bom ficar com um pé atrás, diante da arte do ilusionismo que tomou conta da política brasileira. Nem tudo é o que parece ser. Começo a duvidar até dos meus olhos. Apenas as lembranças históricas não costumam falhar…
Hitler e a sua malta de odientos fascistas alucinados ao assaltarem a Polónia, em 1939, propuseram-se eliminar uma nação do mapa, começando por dizimar sua inteligência – professores, intelectuais, artistas, escritores, pesquisadores e técnicos qualificados. O que sobrasse dos polacos – “sub-humanos eslavos”, segundo a novilíngua nazi – deveria tornar-se, para o resto dos tempos, um povo submisso de lacaios ao serviço da “Herrenrasse” ariana.
A “Operação Tannenberg”, como se chamou a acção, foi meticulosamente preparada pelo Amt II da SD (serviço de inteligência das SS), com produção de listas de nomes das pessoas a serem detidas e assassinadas. Restaria, no final, por vontade dos invasores, apenas uma sociedade de terra arrasada, incapaz de opor-se à sua germanização.

Os canalhas adaptam-se

Os tempos são outros, mas os canalhas adaptam-se. Invadir o Brasil para dizimar sua inteligência seria algo anacrónico. Hoje usa-se o “softpower” para destruir e submeter. Chamam-lhe “guerra híbrida”. Desviam-se as potencialidades e aproveitam-se as debilidades estruturais e funcionais de uma sociedade doméstica, faz-se uso de doutrinação subliminar. As redes sociais com a sua veiculação impulsiva de bronca prestam-se muito bem a isso.
Não é difícil verificar que o beócio do capitão na reserva que ganhou a corrida presidencial não está sozinho no seu projeto, que só é “seu” na sua fantasia e na fantasia de seus filhos oligofrénicos, bem como daquelas pobres criaturas ainda inebriadas com a miragem do “mito”. Quem, no entanto, comanda a operação arrasa-Brasil não mora aqui. Está tão distante quanto os servidores que disseminaram “en masse” mensagens mentirosas na campanha presidencial.
Ocupar os cargos do governo com gente incapaz, vaidosa e despreparada parece ser parte da estratégia de dominação. Trata-se da forma “soft” de matar a “intelligentsia” no aparelho estatal. Carimbam-se os melhores quadros como “marxistas” e sobram os ingénuos, “useful idiots” (idiotas úteis), para levar a máquina pública ao descalabro. Depois vêm os salvadores do FMI, do Banco Mundial e da Reserva Federal para cuidar da massa falida, para transformar o Brasil no “General gouvernement” americano.
De bobo não tem nada, quem está por detrás deste plano. Bobos somos nós que só olhamos para as aparências, achando que o capitão na reserva manda alguma coisa. Bobos são os que acham que foi a “corrupissaum dos petralhas”** a causa dessa indignidade pela qual a nossa nação vai fatalmente passar. Mas o buraco é mais em baixo, como diz a sabedoria popular. Tome-se como exemplo a escolha do chanceler*** do Brasil. Um idiota de carteirinha. Um zero à esquerda que conseguiu ser promovido este ano a ministro de primeira classe por um governo à deriva, certamente à base de muito beija-mão, como sói ser na casa de Rio Branco. Beijou mãos podres e golpistas. Produziu um blog de terceira categoria para puxar o saco do capitão e dos seus filhos-diádocos, ousando o que nenhum diplomata de raiz ousaria. Depois, fez publicar um texto cheio de asneiras sobre a salvação da “civilização ocidental” por Donald Trump – um texto que faria corar até o aluno mais cábula de relações internacionais.

Liquidou-se o diálogo

Mas a escolha tem a sua razão de ser. O aparente besteirol do diplomata lunático tem objectivos, como o tiveram mensagens sobre a URSAL**** ou sobre a suposta defesa da pedofilia pelo candidato adversário do capitão na reserva, serve sobretudo para confundir e transformar a comunicação numa sopinha de letras, longe de qualquer consenso sobre significantes e significados. É com essa guerra semiótica que se desestruturam diálogos essenciais numa sociedade.
O Brasil está a ser alvo de um forte ataque e só não vê quem não quer. Aprofundou-se a fragmentação política de modo a impedir a adopção de qualquer agenda. As eleições, ao invés de estancar a polarização paralisante de pós-2013, radicalizaram-na. Não há conversa possível com quem sugere que a embaixada da Alemanha peca por ignorância quando explica que o nazismo foi uma prática da direita política. O discurso da turba ficou tão absurdo que se reduz a um latido. E a latidos responde-se com latidos. Uau-uau!
A quem interessa esta destruição do país? A importância estratégica do Brasil pode oferecer muitas respostas, mas o certo é que só não interessa às brasileiras e aos brasileiros. De uma pujante potência periférica vamos transformar-nos num parque de diversões das nações centrais. Vão rir-se muito de nós enquanto surripiam os nossos activos. E são, para variar, os mais pobres – os “sub-humanos cucarachos”, na novilíngua trumpista – que pagarão a conta, com a extinção das políticas públicas, com o fim dos direitos económicos e sociais e com a degradação dos serviços públicos mais básicos, pois, quem tem dinheiro, juntar-se-á à gargalhada da plateia gringa em Miami, com Bolsonaro, o (palhaço) Bozo, a apresentar-se como protagonista do quadro de humor deste triste circo brasileiro.

*Eugénio Aragão é ex-ministro da Justiça do Brasil (2016, governo de Dilma Rousseff); advogado, membro do Ministério Público Federal (1987-2017) e professor titular de Direito Internacional da Universidade de Brasília

**Corrupção dos petralhas. Petralhas, um neologismo para designar a fusão entre membros do PT e os ladrões, os (Irmãos) Metralha.
***Ministro dos Negócios Estrangeiros, Ernesto Araújo
****Um trocadilho usado pela direita brasileira glosando com uma suposta União das Repúblicas Socialistas da América Latina (URSAL)


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