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OS JOGOS SUSPENSOS NOS LABIRINTOS DO G20 E DA OPEP

G20: muitos acenos, poucas decisões

2018-12-07

Vijay Prashad*, The Globetrotter/O Lado Oculto

As recentes reuniões do Grupo dos 20 (G20) em Buenos Aires e da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), em Viena, não produziram qualquer solução para os problemas económicos do mundo, mas acalmaram os nervos dos mercados financeiros. No G20, os Estados Unidos e a China baixaram a temperatura do seu diferendo comercial, mas não resolveram as queixas mútuas a longo prazo. Na reunião da OPEP, a Rússia e a Arábia Saudita concordaram em cortar a produção para elevar o preço do petróleo, apesar da pressão dos Estados Unidos e de outros países para o manter em baixa.

Em nenhuma das reuniões as grandes potências encontraram soluções para os seus problemas. Todas estão perdidas em labirintos dos quais não existem saídas fáceis. Porém, o que acalmou o mundo das finanças foi a sensação de que a tensão geopolítica entre as grandes potências parece ter diminuído. Não está claro, no entanto, qual o impacto que essa redução de tensão possa ter em relação às pessoas de todo o mundo.

Comércio

A “guerra comercial” aberta pelo presidente norte-americano, Donald Trump, contra a China iniciou-se com tarifas e terminou enterrada em terrenos movediços. No G20, Trump revelou ao presidente chinês, Xi Jinping, que as tarifas norte-americanas previstas para subir até aos 25% sobre os 200 mil milhões de dólares de importações de mercadorias da China, estão suspensas. Xi respondeu que Pequim se compromete a importar mais bens de produção norte-americana.
Não foram divulgados mais pormenores. As questões fundamentais ligadas à propriedade intelectual e cotações das moedas continuam sem solução. Os Estados Unidos acusam a China de apropriação indevida de propriedade intelectual; ao que Pequim contra-argumenta – como fez nas comissões de arbitragem da Organização Mundial de Comércio – que apenas recorre a tecnologia transferida mo âmbito dos acordos comerciais estabelecidos pelas empresas, muito interessadas em servir-se do trabalho chinês. Será impossível solucionar estes dois problemas, pois cada um dos lados encara-os de maneiras diferentes. São duas visões totalmente incompatíveis sobre propriedade intelectual e política monetária. Se os Estados Unidos consideram que a China joga injustamente com a cotação da sua moeda, a parte chinesa salienta a vantagem injusta que o dólar tem sobre as outras moedas do mundo, já que é utilizada nos circuitos comerciais e na formação dos stocks de moeda.

Petróleo

O presidente russo, Vladimir Putin, e Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, saudaram-se com um amigável bater de mãos no G20. Toda a gente parecia satisfeita em ver Mohammed bin Salman, apesar da clareza das provas do seu papel no assassínio do jornalista saudita Jamal Khashoggi.
Os verdadeiros acordos entre a Rússia e a Arábia Saudita não se fizeram, porém, directamente em Buenos Aires. Foram selados mais tranquilamente em Viena, na reunião da OPEP.
Em Buenos Aires, Putin declarou: “sim, temos acordo para prorrogar os nossos acordos”. Referia-se ao acordo celebrado em 2016 pelos dois países para gerir os preços do petróleo com vantagens mútuas. Não obstante esse entendimento, a Arábia Saudita continuou a criar problemas inundando os mercados com petróleo, baixando os preços e prejudicando as próprias finanças. A Rússia está ansiosa pelos cortes na produção de petróleo e pela subida de preços. Vítima de sanções e dos preços baixos do petróleo, a Rússia mergulhou em dificuldades económicas internas.
A questão real que se coloca é saber quanto é que cada país pode produzir, dentro e fora da OPEP. Foi por isso que Putin afirmou: “não há acordo final sobre os volumes”, apesar do princípio de acordo estabelecido. A Arábia Saudita não tem sido, de facto, um bom parceiro nesta matéria. Tem produzido petróleo fora dos limites ao longo dos últimos anos, em grande parte devido a pressões dos Estados Unidos.
Existem duas razões pelas quais os Estados Unidos pretendem o petróleo com preços baixos, apesar de serem um dos maiores produtores mundiais. Em primeiro lugar, os preços baixos significam um subsídio imediato ao consumidor norte-americano e às empresas do país. Enquanto os preços do petróleo estiverem baixos não haverá incentivos económicos para mudanças energéticas no sentido dos sectores renováveis. Em segundo lugar, os preços baixos prejudicam os adversários da ordem mundial chefiada pelos Estados Unidos e que, por acaso, são grandes produtores de petróleo. A lista integra o Irão e a Venezuela, dois países afectados por turbulências internas quando os preços do petróleo se desmoronaram.
Os Estados Unidos, porém, dispõem de ferramentas suficientes para desestabilizar esses países sem forçar descidas dos preços do petróleo. Por exemplo, mesmo que os preços subam, as sanções impostas pelos Estados Unidos podem ser suficientemente duras para tirar o petróleo venezuelano e iraniano dos mercados. A ausência desses produtores funcionará como um corte efectivo na produção, que forçará a subida dos preços.
A Arábia Saudita já começou a pressionar a Líbia e a Nigéria para reduzirem as exportações de petróleo, embora ambos dependam das receitas provenientes da comercialização do produto. Riade já anteriormente conseguira empurrar o Qatar para fora da OPEP, por motivos políticos, mas como este país produz apenas dois por cento do volume total da OPEP, esse facto não é significativo. No mundo do petróleo, há os que são postos sempre de lado para que outros tirem proveito.

Clube dos compradores de petróleo

Em 2005, o ministro indiano do Petróleo, Mani Shankar Aiyar, juntou os seus homólogos de toda a Ásia para discutir a possível formação de um clube de compradores. A questão concreta posta sobre a mesa foi a “taxa asiática” cobrada pela Arábia Saudita e outros países produtores de petróleo às nações do continente. A “taxa asiática” é substancial – perto de dez mil milhões de dólares para os consumidores asiáticos de petróleo do Golfo. Apesar de a situação ser preocupante, os ministros não chegaram a qualquer acordo.
A Ásia é o maior importador mundial de petróleo. A Índia e a China, juntamente com os Estados Unidos, são os três maiores importadores de petróleo, imediatamente seguidos pelo Japão e a Coreia do Sul. Estes quatro países asiáticos são responsáveis por um terço das importações mundiais de petróleo. Todos são dependentes dos exportadores mas, por outro lado, têm poder como bloco de consumidores.
Em 2012, o primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, defendeu a necessidade de haver um contra-cartel da OPEP que inclua a Europa e os Estados Unidos. O acolhimento da sua proposta foi irrelevante mas, ainda assim, o petróleo atingiu os 100 dólares por barril, sufocou o crescimento económico e não fez com que qualquer dos gigantes industriais se transferisse para o sector das energias renováveis livres de carbono.
A ideia de criar um cartel de compradores voltou a uma mesa de negociações em Abril deste ano, no Fórum Internacional de Energia. O presidente da Empresa Indiana de Petróleo (IOC), Sanjiv Singh, e o presidente da Empresa Nacional de Petróleo da China (CNPC), Wang Yilin, reuniram-se em Pequim para aprofundar essa possibilidade. Em Junho, a Índia e a China – que importam 17% do petróleo mundial - encararam seriamente a formação de um cartel de compradores, de modo a contribuir para “preços estáveis e moderados”, como informou a actual ministra indiana do Petróleo, Dharmendra Pradhan.
A China e a Índia não ficaram satisfeitas com a imposição de sanções ao Irão decidida pelos Estados Unidos, por ter um impacto negativo nas economias asiáticas. Os dois países uniram-se à União Europeia e ao Japão, que também rejeitaram essas sanções. Consta que se a China e a Índia estabelecerem um clube de compradores, o Japão e a UE poderão participar.

Cheiro a gás lacrimogénio

Os protestos em Paris foram os mais intensos e violentos em décadas. Os “coletes amarelos” surgiram como vindos do nada para protestarem contra os aumentos dos preços dos combustíveis decididos pelo governo francês. Argumentam que a violência da economia destrói a capacidade de produzir. Qualquer violência nas ruas é reflexo da violência que estrutura as vidas de quem protesta. As ruas de Paris cheiravam a gás lacrimogénio.
Em Buenos Aires, na Argentina, sindicatos e organizações políticas de diferentes tendências decidiram protestar em massa contra o G20. Queriam fazer-se ouvir pelos seus dirigentes, que se fizeram surdos às suas reivindicações. O governo argentino organizou a reunião do G20 no centro de convenções Costa Salguero, junto ao magnífico Rio de La Plata. A polícia isolou a área; navios da guarda-costeira patrulhavam no rio. Ninguém podia chegar perto do local. Nenhum dos dirigentes participantes foi interrompido pelos cânticos.
Em Viena não houve protestos. No entanto, o edifício da OPEP estava cercado por unidades de elite dos serviços de segurança WEGA. Ninguém sabia da realização da reunião. Existe muito pouca democracia nas instituições que decidem sobre as nossas vidas.

*Historiador, escritor, editor e jornalista indiano. Correspondente chefe da publicação Globetrotter, um projecto do Independent Media Institute; editor-chefe da LeftWord Books e director do Tricontinental; Institute for Social Research

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